Quando tinha apenas 23 anos, Mick Jagger deu uma célebre entrevista à revista americana People, em junho de 1975, onde afirmava: “Prefiro estar morto a continuar a cantar o ‘Satisfaction’ aos 45 anos.

Essa declaração irónica tornou-se famosa e é frequentemente usada para ilustrar o contraste entre as declarações iniciais de um artista e a realidade da sua carreira mais tarde na vida. A verdade é que aos 45 anos, Jagger continuou a cantar o grande sucesso dos Stones, e, agora, com 81 anos, espera-se que cante novamente no concerto agendado da banda britânica no dia 11 de julho, na Cidade do México.

É com essa frase, num paralelismo cómico, que abre “Still Pushing Pineapples” (título inspirado no título do livro de Michael, “Still Pushing Pineapples: The True Story of The Legendary Dene Michael“), documentário da realizadora e diretora de fotografia Kim Hopkins em torno de Dene Michael,  ex-vocalista da banda pop Black Lace, mais conhecida pelo êxito “Agadoo” (1984), que seria mesmo, ano mais tarde, votada como a pior música da história da pop britânica.

Dene, agora na casa dos 70 anos, só entrou para os Black Lace em 1986, substituindo Colin Routh, ou seja, dois anos depois desse sucesso, mas assumiu desde cedo o título de Mr. Agadoo, prosseguindo até hoje uma carreira a solo em que o famoso tema musical de 1984 é ainda o mais requisitado nos espetáculos em que atua, normalmente em pequenos espaços de restauração ou festas de casamento. Pegando nessa atividade de Dene, e ainda o seu sonho de um comeback estonteante, que Hopkins acompanha-o na sua jornada cotidiana, por entre concertos, relacionamentos com a mãe idosa, Anne Betteridge, agora com 91 anos, e sua parceira Hayley, que pretende dele um pouco mais do que ele está disposto a dar.

Numa forma observacional de cinema-vérité, Kim Hopkins não fala apenas de um cantor ainda agarrado à fama do passado, mas também de toda uma cultura de entretenimento da classe trabalhadora, aqui visitada na forma de um road movie pessoal minado a temas dos Black Lace, como “Do the Conga” e  “Superman“. E nessa jornada, a própria Kim, na fotografia, carrega na palete de cores, como que dando ao espectador uma imagem do Reino Unido (e da costa espanhola rumo a Benidorm) que parece sair das lentes de Martin Parr.

Quem viu filmes como “Rimini” de Ulrich Seidl, vai certamente ser levado até ele quando observa “Still Pushing Pineapples”, documentário que de forma humana retrata o sobreviver pós-fama de um homem que não tem problema em expor as suas fragilidades perante ambições ainda latentes. Simultaneamente, o filme segue a constante mudança da sociedade e dos gostos culturais britânicos, que ora geram one-hit-wonders de fama repentina, como os esquecem a igual velocidade.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
still-pushing-pineapples-kim-hopkins-leva-nos-numa-road-trip-com-o-mr-agadooNuma forma observacional de cinema-vérité, Kim Hopkins não fala apenas de um cantor ainda agarrado à fama do passado, mas também de toda uma cultura de entretenimento da classe trabalhadora, aqui visitada na forma de um road movie pessoal