Alçada ao posto de promessa popular depois do fenómeno à la Agatha Christie “Knives Out” (2019), a cubana Ana de Armas ganhou prestígio ao encarnar um espectro da persona de Marilyn Monroe em “Blonde” (2022), que lhe valeu uma (merecida) nomeação ao Oscar pela representação dos calvários femininos em dimensão mítica. O afago da Academia de Hollywood veio na esteira da sua passagem (breve) pelo derradeiro “007” da fase Daniel Craig, em 2021, no qual demonstrou as suas credenciais para interpretar uma valquíria de belicismo condizente com o pleito antissexista da contemporaneidade. O molde ali esboçado, como aliada de James Bond, avança e ganha humanidade tonificado pela argamassa melodramática de “Ballerina” (Do Universo de John Wick: Ballerina), que faz jus ao legado cinemático da franquia “John Wick” (2014-2023) da qual deriva. Toda a linha narrativa dinâmica da saga do Baba Yaga, o matador encarnado por Keanu Reeves, é retomada no relato de como a assassina profissional Eve Macarro tenta se livrar do chefe do crime que a desgraçou. Há mais uma camada que amplia a sua potência dramatúrgica: o jogo com o folhetim.
Alvo de patrulhas ideológicas desde a segunda metade da década de 1990, quando a fórmula dos exércitos de um homem só (como visto em “Commando” ou “Stallone Cobra”) foi tachada como obsoleta, o género ação encontrou caminhos de sobrevivência no diálogo com o humor, ao convocar Jackie Chan de Hong Kong e ao eleger Will Smith como faróis. Houve ainda um traço de vigilantismo de cabelos grisalhos, celebrizado pela transformação de Liam Neeson no Charles Bronson do Presente. A terceira linha é a gore, com sangue e tripas à mostra, trazida por David Ayer em parcerias recentes com Jason Statham, tipo “Beekeeper” (2024). A linha defendida por “John Wick” é resultado da entrada de duplos (dublês) na realização, como Chad Stahelski e David Leitch (Bullet Train), que apostam numa forma de narrar em que o movimento é soberano, como se fossem os cartoons do Beep-Beep da TV. “Ballerina” atraca nesse quarto porto, mas adiciona melodrama ao cais.
Len Wiseman, o realizador, demonstrou destreza ao realizar “Underworld” (2003) com um orçamento curto, quase série B, e fazer dele um êxito, com continuações a granel, apoiado no carisma de Kate Beckinsale (ex-companheira do cineasta). Não conseguiu, apesar disso, firmar uma marca autoral, mesmo com a acertada imersão pelo universo de John McClane (Bruce Willis) em “Live Free or Die Hard” (2007). A sua frustrada (e frustrante) releitura da sci-fi “Total Recall” (1990), com base no guião filmado por Paul Verhoeven, achatou o pequeno prestígio que angariou, o que o condenou ao streaming e à TV. Apesar disso, a habilidade que ele demonstrou em conduzir tramas com (anti-)heroínas sem objetifica-las cacifou o seu nome para rodar o argumento escrito por Shay Hatten (“Rebel Moon”) sobre as peripécias da killing Eve.
Mesmo não sendo um petisco B de raiz, como se via, com os filmes de produtoras icónicas como a Cannon com Chuck Norris (Delta Force) e Michael Dudikoff (American Ninja), “Bailarina” notabiliza-se por emular (bem) o espírito anárquico das narrativas de socos, tiros e pontapés do passado, distinguindo-se dos “filmes de algoritmo” dos nossos dias pela sua absoluta entrega à vertigem e desdém à ditadura moralizante do politicamente correto. É cinemática pura, enriquecida pelo carisma de Ana de Armas e a sua habilidade de fazer ferver a sacarose em situações folhetinescas. A escolha do diretor de fotografia de “Colombiana” (2011), com Zoe Saldaña, para lidar com os enquadramentos assegura uma veia dionisíaca que suporta sinestesias. O fotógrafo Romain Lacourbas aquece em fervura máxima tanto as sequências de choro quanto os tiroteios. Deleita-se com o seu colorido na sequência de uma luta com arremesso de pratos. A montagem febril de Jason Ballantine e Julian Clarke não deixa o comboio jamais descarrilhar.
Nos minutos iniciais, vemos uma Eve ainda miúda a testemunhar a execução do pai a mando do Chanceler, líder de uma guilda de matadores que se mantém nas raias da barbárie. O vilão é encarnado magistralmente por Gabriel Byrne, o Diabo que dava uma coça em Schwarzenegger em “End of Days” (1999). Com a perda da figura paterna, a pequena Eve é deixada à míngua até ser adotada pela organização de John Wick, a Alta Cúpula, reunida no Hotel Continental pelo lorde do Mal Winston (Ian McShane). A menina é confiada a uma das suas agregadas, a célula de assassinos Ruska Roma, chefiada pela coreógrafa (e bandida) a Diretora, vilã que Anjelica Huston encarna com elegância.
Treinada para matar, Eve é solta pelo mundo e passa reduzir a densidade populacional do planeta sob encomenda. Numa missão, ela esbarra com o Chanceler e decide vingar-se, o que a faz cair em desgraça aos olhos da Ruska Roma. Não por acaso, Wick, o Baba Yaga em pessoa, é escolhido para dar cabo dela, num enredo que se passa antes do quarto filme da série com Keanu, lançado em 2023.
Nessa corrida para escapar de Wick e mandar os seus desafetos para o Além, ela esbarra com uma matadora misteriosa (Lena, vivida pela colombiana Catalina Sandino Moreno, nomeada ao Oscar por “Maria Cheia de Graça”), que carrega os segredos tristes do passado. Ali, um quê de soap opera salpica a vida (e sentimento) numa maratona de coágulos sanguíneos espirrados. Essa vertigem garante um espetáculo fílmico anárquico, com uma atriz em estado de graça.




















