Consequência de uma piada de Neil Patrick Harris na sitcom “How I Met Your Mother”, a série “Cobra Kai” preparou-se no YouTube, em 2018, e fez ninho na Netflix, no meio à pandemia da covid-19, onde se configurou com um fenómeno pop que olha para cultura geek e nerd em retrospetiva. Foi lá na década 1980 que foram buscar um herói, Daniel LaRusso, e o seu algoz de juventude, Johnny Lawrence, numa inversão de signos do que era o Mal. “Karate Kid: Legends” (“Karate Kid: Os Campeões“, em Portugal), que chega agora a Portugal após uma carreira tímida pelas salas da América Latina, surfa nessa premissa de procurar símbolos com algumas décadas no currículo e mobilizar a nostalgia da plateia. Temos LaRusso de um lado e temos o Sr. Han, imortalizado por Jackie Chan do outro. Esse resgate vincula-se a um conceito mercadológico que a indústria audiovisual chama Legacy Sequel. Trata-se de reciclar uma personagem, uma série ou franquia que fez sucesso anos atrás, com a preservação radical das suas características, a fim de reativar clubes de fãs, ainda que numa adaptação da linguagem para os novos tempos. Foi o que se viu em 2021, na Prime Video da Amazon, com “Coming 2 America”, com Eddie Murphy a reviver o monarca de Zamunda, que lhe ampliou a fama em comédia de 1988. Foi o que se viu ainda no furacão das bilheteiras “Top Gun: Maverick”, campeão da arrecadação global em 2022.
O que se vê em “Karate Kid: Legends” é o agitar de uma flâmula oitentista de filmes teen, que se articulou com a Brat Peck de John Hughes (1950-2009), de transformar adolescentes em crise em protagonistas, de modo a atrair esse público. A “crise” em questão envolvia pancada, uma vez que LaRusso era saco de pancada nas mãos de Lawrence e dos seus colegas do dojô Cobra Kai, até ser abrigado por Mr. Miyagi, que o treina para combater os algozes com o uso de expressões como “Wax In Wax Off”. O movimento circular de encerar, repetido à exaustão, engatilhava os músculos de Daniel para a defesa. O novo filme tem um jovem menos indefeso do que ele, vindo agora da China. A necessidade de acolhimento do novo carateca, contudo, é igual, pois a medula do Legacy Sequel vem da reiteração das fórmulas de outrora.
A expressão Legacy Sequel nasceu na banda desenhada (a BD), especialmente quando a DC e a Marvel resolveram resgatar personagens muito antigas e dar-lhes uma nova roupagem, ao reviver algo de 20, 30, por vezes 40 anos. Foi assim quando Neil Gaiman assumiu o projeto “Sandman”, sobre Lorde Morpheus. O Sandman original das artes gráficas surgiu em 1939 e era um ex-veterano da I Guerra Mundial que combatia o crime usando uma máscara de gás e uma pistola de vapor cujo efeito era colocar os seus alvos a dormir. Em janeiro de 1989, Gaiman aproveitou-se daquele nome e deu-lhe uma premissa diferente: a personagem passou a ser um dos Perpétuos, entidades eternas que cumprem funções essenciais ao universo. A dele era dar sonhos à Humanidade, com a ajuda de uma areia que põe o mundo a nanar.
A Marvel, na década de 1990, fez algo parecido com Ghost Rider. Criado em 1972, o Espírito da Vingança era um vigilante que vendia muitas revistas mensalmente até cair no ostracismo, nos anos 1980, quando o heroísmo flamboyant caducou. Em 1991, os quiosques de revistas em língua portuguesa receberam o primeiro almanaque com uma nova versão do Motoqueiro, totalmente recriado e com uma nova identidade. Ele deixava de ser o duplo e piloto de provas Johnny Blaze para ser o estudante Danny Ketch. Nasceu um best-seller, que inspirou uma longa-metragem de 2007 com Nicolas Cage, ainda que a trazer Blaze de volta.
Nos anos 1990 e 2000, as BDs fizeram operações deste tipo pelos anos seguintes até mobilizar o mercado cinematográfico, que já havia aplicado (e bem) a equação da Legacy Sequel numa ótica autoral. Paul Newman (1925-2008) foi nomeado ao Oscar por “The Hustler” (em português, “Desafio à Corrupção”), de 1961, após arrebatar a crítica com o seu desempenho como o craque do snooker Fast Eddie Felson. A sua estatueta dourada só viria cerca de 25 anos depois, e por esse mesmo papel, numa reinvenção de Felson assinada por Martin Scorsese: “A Cor do Dinheiro”, com Tom Cruise ao lado do galã já agrisalhado. Em França, Jean-Pierre Léaud, que despontou para o estrelato em 1959, vivendo o miúdo Antoine Doinel em “Les Quatre Cents Coups” (“Os 400 Golpes”/ “Os Incompreendidos”, retomando a personagem nove anos depois, de novo sob a direção de François Truffaut (192-1984), em “Beijos Roubados” (1968) e a sua continuação direta, “Domicílio Conjugal” (1970). Nove anos depois, Doinel voltou, uma vez mais vivido por Léaud, em “O Amor em Fuga”.
É possível enquadrar “Karate Kid: Legends” nessa genealogia uma vez que o projeto carrega na sua matriz a assinatura do realizador John G. Avildsen (1935 – 2017). Foi ele quem deu forma para LaRusso, Lawrence e Miyagi. O novo filme da cinessérie resguardou o brio afetivo do cineasta, que trazia um Oscar no currículo, conquistado em 1977, por “Rocky”. A educação sentimental que se fez notar na trilogia marcial filmada por ele de 1984 a 1989 é retomada na longa-metragem deste ano, filmada pelo cineasta Jonathan Entwistle (I Am Not Okay With This), que foca-se mais no amadurecimento do que na bordoada. O Avildsen outonal de “The Power of One”, de 1992, é o que mais transpira desse diálogo arejado com o drama desportivo.
Avildsen teve a sua trajetória profissional abordada no documentário “The King of Underdogs” (2016), de Derek Wayne Johnsn, e foi convocado pela Columbia Pictures para filmar “Karate Kid”, pois o estúdio desejava ter um “Rocky” para a criançada. O que ele fez foi acompanhar a jornada de um looser nato, LaRusso (Macchio, hoje com 63 anos), da humilhação ao êxito, na troca com Miyagi, papel que valeu uma nomeação ao Oscar para Noriuki Pat Morita (1932-2005). O ator de origem asiática consagrou a imagem do mestre, do sensei, o que influenciou uma série de outras franquias, incluindo a relação Neo e Morpheus em “Matrix” (1999-2021).
Essa dimensão autoral volta em “Karate Kid: Legends”, que conta com o talento de Ben Wang no papel do título. Apesar de o coração disparar a cada aparição de Macchio ao lado do Buster Keaton de Hong Kong (o realizador e ator Jackie Chan), é Wang que nos conduz por uma jornada de superação da China a Nova Iorque, passando por um casarão na Califórnia.
Li (Wang) deixa a sua vida em terras chinesas para acompanhar a mãe, médica, em NY, na esteira da morte do irmão. Deixa para trás a escola do sensei Han (papel de Chan), que lhe deu o beabá da defesa pessoal. No seu novo lar, o menino vai cair de amores pela funcionária de uma pizzaria, a aguerrida Mia (Sadie Stanley); vai ajudar o seu futuro sogro (Joshua Jackson) a voltar ao boxe; e vai encarar Connor (Aramis Knight). Tem isso tudo pela frente, mais a tarefa de se apaziguar com o luto pelo mano morto e mais a pós-graduação em socos e pontapés com Han e com o Karate Kid de antigamente, o hoje sensei Daniel LaRusso (Macchio). Esse treino ocupa pouco tempo do filme, que se dedica mais ao amadurecimento de Li no Novo Mundo.
Nesse quesito de “crónica do amadurecer”, a narrativa de Entwistle conta com o frescor de montagem de Dana E. Glauberman e Colby Parker Jr. Eles harmonizam elementos gráficos de TikTok e medias afins dos anos 2020. Impõem agilidade aos distintos eixos do argumento, que nunca perde o foco do (importante) debate sobre a sina de imigrantes na América. O facto de Li treinar o pai da sua amada, para este se tornar um pugilista melhor, isenta “Legends” da acusação de ser uma fotocópia genérica do que Avildsen fez lá atrás.
Chan esbanja graça e vigor em cena, neste 2025 em que foi escolhido para receber o troféu Pardo alla Carriera no 78. Festival de Locarno, na Suíça, a 9 de agosto. Até lá, “Karate Kid: Legends”, que tem um epílogo pós-créditos de rachar a rir, firma-se como uma pipoca das mais saborosas.




















