Ator de francos e firmes recursos em filmes como “Sonho de Valsa” (1987), “Depois de Tudo” (2008) e “A Alegria É A Prova Dos Nove” (2023), Ney de Souza Pereira tomou o seu sobrenome artístico, Matogrosso, emprestado da figura paterna que por muito tempo foi um signo de dor e conflito na sua trajetória pessoal. Profissionalmente, contudo, a voz singular que trina em suas amígdalas fez com que pavimentasse uma das mais admiráveis carreiras da MPB, apoiado numa atuação performática, identificada como um estandarte queer em seu Brasil natal. Fora dele também. O seu repertório celebra a Natureza (a sua musa), numa compreensão de que gente é bicho, assim como celebra a liberdade plena do corpo. Dele exalam perfumes que demarcam nossas sensações, do desejo ao acabrunhamento. Nos cheiros residem verdades, visto que organismos não metem. A razão, sim, inventa disfarces e subterfúgios, sobretudo se subjugada ao moralismo. É desse arrazoado filosófico que parte “Homem Com H”, candidato a blockbuster que nasceu no cinema brasileiro sob a realização de Esmir Filho, fiel as cartilhas do biopic, qual “Bohemian Rhapsody” (2018), mas temente aos desígnios autorais do cineasta que o esculpiu nas raias caudalosas do erotismo.
Canções que consagraram a sua voz de rouxinol desfilam em cena não como uma jukebox, mas, sim, obedientes cronologicamente a uma estrutura de drama biográfico que vai da sua infância até às perdas pessoais dos anos 1980, quando a SIDA (que não o tocou) ceifou a vida de amados e amigos. As mortes assombram um período de maturidade na construção da sua persona, numa metamorfose constante da sua maneira de representar símbolos masculinos sem o cabresto do machismo. O seu bamboleio em “Mesmo Que Seja Eu” e “Bandido Corazón” dão um basta ao sexismo histórico remissivo ao jugo moral cultural da colonização ibérica. O macho latino composto por Ney, na vida, requebra e celebra o gozo. Requebros estão no filme, numa interpretação em estado de graça de Jesuíta Barbosa, ator encarado como promessa desde “Tatuagem” (2013) e “Praia do Futuro” (2014). Como não falamos de “A Complete Unknown”, ele não canta. O que se ouve nas salas de exibição é o cantar do próprio Ney, mas acompanhado de um desenvolto trabalho corporal de Jesuíta. Ele encarna as angústias do músico num engenho cinematográfico estruturado sobre o molde de autoralidade de Esmir Filho. Lá se vão quase 20 anos desde que o realizador tornou a Semana da Crítica de Cannes mais leve com “Alguma Coisa Assim”, uma curta-metragem de 2006, rodada em duo com Mariana Bastos. O argumento centrava-se na premissa de que parceria é um bem inalienável e inquebrantável. O tema voltou numa lógica de “despertar da primavera” na primeira longa-metragem dele, “Os Famosos e os Duendes da Morte”, indicada ao Leopardo de Ouro de Locarno. A fita o consagrou com o troféu Redentor de Melhor Filme e o Prémio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) do Festival do Rio 2009. O assunto “aliança”, ou seja, o carinho que faz pessoas se unirem e manter a colaboração (no âmbito do querer) voltou à tona no seu cinema via “Verlust” (2020), com Andrea Beltrão, Marina Lima e uma baleia, e na série Netflix “Boca a Boca”, lançada em meio à pandemia. A recorrência desse debate sobre ser (e se manter) leal faz de “Homem Com H” uma autopsia em vida do companheirismo, sem deixar a transgressão de lado. Até a coragem com que ele lidou com os censores da ditadura militar do Brasil (de 1964 a 1985) é reconstituída, numa hilária sequência pós-show em Recife.
Tão ou mais provocativo do que seu hinário rebelde, é um estudo feito por Esmir dos laços sentimentais que Ney cria com as pessoas que ama, do pai militar rígido (Romulo Braga, um colosso) ao colega de quartel que mexe com os seus desejos juvenis de recruta (Augusto Trainotti). Os seus parceiros do Secos e Molhados, João Ricardo (Mauro Soares) e Gerson Conrad (Jeff Lyrio), também aparecem nesse bolo sentimental, assim como as mulheres que lhe trouxeram afago, feito a mãe, interpretada por Hermila Guedes, e a amiga Lara (Carol Abras). Alguns o magoam – como o Cazuza, interpretado delicadamente por Jullio Reis, e o namorado ciumento vivido grandiosamente por Danil Grangheia -, outros o amam, como o médico Marco de Maria (Bruno Montaleone), o seu companheiro querido, que sofre com o HIV.
Entre extremos, em meio a golpes da vida e o êxito gigante nos palcos, Ney Matogrosso jamais esmorece, fitado em closes de cores densas da fotografia de Azul Serra, que salpica suor nas eróticas sequências de sexo, sem nunca se exceder ao limite do pornográfico, qual o francês Bertrand Bonello fez em “Saint Laurent” (2014). A direção de arte de Thales Junqueira também serve de termómetro para a elegância da narrativa de Esmir, bem nutrida, na base, pelo trabalho de caracterização visual de Martin Trujillo, a evocar as extravagantes maquiagens de Ney em cerca de seis décadas de coragem.



















