Duas esferas do cinema de género – filme de fantasia e filme de espionagem – (des)equilibram-se na equação dramatúrgica que serve de chão ao protótipo de franquia “Thuderbolts*“, escorado em sequências eletrizantes em momentos distintos da sua narrativa desarticulada. A produção de 180 milhões de dólares faz alusão a uma BD do final dos anos 1990, mais pelo seu nome do que pelo enredo. Prefere se ater à mitologia formada pelo Marvel Studios após a sua fusão com a Disney. O património construído em tempos anteriores a essa fusão industrial acolheu realizadores autores em empresas distintas, como a Universal (Ang Lee), a Fox (Bryan Singer) e a Sony (Sam Raimi). O cineasta da vez, Jake Schreirer, situa-se a léguas do estatuto de autor, abrindo os seus caminhos por meio da superestimada série “Beef” e do filme sci-fiRobot and Frank” (2012).

O seu trabalho é subserviente aos enredos das fitas e das séries da Disney + que nasceram no vácuo pós “Avengers” (2012-2019). Há um descaso absoluto pelo histórico nas artes gráficas dos Thunderbolts. O grupo surgiu em “The Incredible Hulk”, nº449, em janeiro de 1997, numa historieta de Peter David, com desenhos do brasileiro Mike Deodato Jr. Três meses depois, o tal coletivo ganhou um título próprio, ilustrado por um desenhista que passava por uma fase de apogeu: Mark Bagley. Ele foi o cocriador da super equipa com o escritor Kurt Busiek, um génio que arrebatou legiões de fãs às livrarias e às bancas com “Astro City”.

Bagley jamais ganhou prestígio à altura da sua excelência, com o seu traço de inspiração helénica refestelado no colorido da indústria quadrinista noventista. Numa sinergia única, ele e Busiek puseram nerds de queixo caído com tramas sobre aceitação, sem apego algum ao maniqueísmo. O esquadrão que criaram não unia bons corações e, sim, os Mestres do Terror, uma quadrilha de malfeitores. Eles fingiam ser vigilantes por uma dica do espadachim Cidadão V, um bom rapaz de fachada. Por trás da sua máscara metálica estava o Barão Helmut Zemo, um espólio vivo das hordas nazis. O nome dele já foi ouvido nas telas antes, associado ao ator teuto-espanhol Daniel Brühl (de “Adeus, Lenine!”). Só que Schreirer optou por pô-lo de lado.

Na banda desenhada de Bagley e Busiek, a ambição de Zemo/ Cidadão V era ganhar a credibilidade da população, em meio a uma ausência dos Vingadores, que desapareceram no meio de uma crise dimensional ligada ao Professor Xavier. Uma vez adorado pelos media, ele poderia expandir os seus domínios sobre o mundo livre. Dessa premissa, o que ficou no filme de Schreirer é a manipulação mediática. O único polo de dubiedade é a condessa Valentina Allegra de Fontaine, personagem que afirma a genialidade da atriz Julia Louis-Dreyfus na sua encarnação pós “Seinfeld“. O projeto estético que chega agora às telas utiliza bem o seu talento, mas quem rege tudo é o produtor Kevin Feige, uma espécie de Darryl Francis Zanuck pós-moderno. Ele é o capataz da Disney na luta para manter a Marvel no azul após desastres como “Thor: Amor e Trovão“, de 2022, e “Quantumania“, de 2023. A tarefa anda árdua.

Num empenho de mesclar elementos de “007” com aventuras de vigilantes uniformizados, o guião de Joanna Calo e Eric Pearson vai buscar na banda desenhada a minissérie “The Sentry”, escrita por Paul Jenkins e desenhada por Jae Lee, em 2000. O foco é o “projeto” batizado de Sentinela, sobre um aspirante a Homem de Aço que se diferencia pela bipolaridade. É um super ser poderoso que guarda no seu inconsciente um transtorno de personalidade, na forma de uma criatura sombria. Esse tal ser reduz as vítimas a um vácuo. É esse o papel do ator Lewis Pullman, no filme de Scheirer: dar vida ao bipolar Robert Reynolds. Ele é o quinhão de fábula numa longa-metragem que começa com um pé em “John Wick” e outro em “Die Hard“, com um explícito piscar de olho a “Terminator 2” (1991), de James Cameron, numa sequência motorizada. A tal passagem é o segmento mais empolgante de toda a fita, apoiada na figura do Soldado de Inverno (e no brilho do intérprete, Sebastian Stan).

No terço inicial, a ardilosa De Fontaine põe a Viúva Negra (Florence Pugh, em radiante interpretação), Ava Starr (Hannah John-Kamen) e John Walker (Wyatt Russell, preciso) em confronto. A meta desse embate é desbaratar um plano militar de defesa, classificado como Sentinela, para forjar novos Avengers num laboratório. Reynolds está ali. O seu lado mau também. O flirt afetivo entre ele e a Viúva Negra sugere ser uma história de amor, mas a patrulha da correção política woke não tolera a existência de um par romântico e da troca de fluidos. O humanismo do império Mickey se põe avesso ao benquerer. No quesito adrenalina, existe uma oferta generosa, com destaque para a entrada da Viúva nem cena, num bailado de pancadaria. David Harbour assegura os risos, sob o manto soviético de Alexei Shostakov, em hilárias tiradas. O sol da película, contudo, segue a ser o Soldado do Inverno de Stan. Visualmente, a opção por uma luz dionisíaca, vez ou outra bruxuleada, na direção de fotografia de Andrew Droz Palermo, tira esse esboço de espetáculo pop da mesmice.

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Rodrigo Fonseca
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