Apesar da boa boa impressão que causa, na largada, com uma sequência de pancadaria de fazer inveja aos bons filmes de Jason Statham, “The Accountant 2 – Acerto de Contas” perde-se no labirinto de uma excelência anunciada que está lá… é potente… mas é mal lapidada na realização de Gavin O’Connor. O guião é uma confusão, sem decidir qual (dos vários) caminho(s) que abre seguir. A alusão a “Rambo: Last Blood” (2019) e a “Sound of Freedom” (2013), na abordagem do crime do tráfico humano para o mercado sexual, é tão descarada que ambas as referências se impõem sobre as imagens que vemos. A serpente pica o próprio rabo com mais força ainda na maneira como o filme é incapaz de administrar aquilo que tem de melhor, realmente melhor: Jon Bernthal.
A sua personagem, o assassino de aluguer Braxton, é tão bom, mas tão bom, que aniquila qualquer resquício de interesse da plateia pelo real protagonista da fita, Ben Affleck. O talento de Bernthal é enorme. O seu carisma, ainda maior. A sua habilidade em esculpir camadas de sentido num diálogo flat ultrapassa tudo. O problema: o argumento de Bill Dubuque não sustenta o tanto que o ator, em estado de graça, oferece a uma narrativa que namora com a discussão do bromance num mar de pólvora e de balas a voar.
“The Accountant 2” existe para que Affleck tente preservar status de protagonista no Panteão de Hollywood. O filme anterior, de 2016, custou US$ 44 milhões e faturou US$ 155,5 milhões. O número é mais alto do que muitas outras coisas que ele fez enquanto se arriscava a vestir o manto do Batman na porção Zack Snyder da DC. Uma porção muito boa, mas rechaçada pelos fãs. Ao mesmo tempo, a força que estabeleceu como cineasta com “Argo” (2012), coroado com o Oscar, perdeu-se e ele acabou mal posicionado como realizador. Como produtor, montou um núcleo de criação de filmes com o seu bro Matt Damon, que gerou uma pérola, “Small Things Like These”, exibido na abertura da Berlinale de 2024. Mas aquele Affleck poderoso do fim dos anos 1990 e do início dos anos 2000 e aquele Affleck cheio de vigor cénico de “Gone Girl” (2014), de David Fincher, foram colocados no canto em meio a polémicas pessoais. Só não esqueçamos do seu trabalho (nomeado ao Globo de Ouro) em “The Tender Bar” (2021), da Amazon Prime, inegavelmente sublime. Vale o mesmo mimo para o injustiçado “The Way Back” (2020), fagocitado pela pandemia.
Na tentativa de brincar de John Wick, Affleck retorna ao papel de Christian Wolff, o contabilista autista que, na infância e juventude foi treinado para ser um ferrabrás no gatilho e na luta. O “The Accountant” original também foi escrito por Dubuque e filmado por O’Connor, um cineasta sem identidade que provou ter sólidas proficiências artísticas em “Warrior” (2011). A sua forma de filmar combates evoluiu com o tempo. Existe adrenalina aos litros em cada enquadramento da nova aventura de Wolff. O problema é a falta de ordenação dos eixos dramáticos da trama, que acaba por resvalar num formato genérico, sem a cinemática que a supracitada saga de Wick, com Keanu Reeves (para citar um bom exemplo de thriller), tem.
Em linhas gerais, a agente Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson) precisa tirar Wolff da toca a fim de desmanchar a célula de exploração de mulheres imigrantes latinas que provocou a morte do seu mentor, Ray (J. K. Simmons). Como a quadrilha está armada até os dentes, o herói convoca o irmão, Braxton, com quem não falava há anos, para ter uma munição viva no seu ataque ao Mal. Tenta superar mágoas de outrora enquanto parte para a paulada.
Falha n° 1: não é convincente a desconexão entre ambos, pois não há solidez na justificação de incompatibilidades entre os génios e de maus tratos familiares. Falha n°2: não existe nenhum trabalho de carpintaria dramatúrgica para que os antagonistas ganhem um perfil humano mínimo. Existem “bandidos”, mas não se sabe quem são. É apenas uma massa que Dubuque contingencia como má e nos obriga a odiá-la por associação a uma prática criminosa hedionda.
A preocupação maior é com os feitos de Wolff e o seu empenho em criar laços com o irmão tagarela, que mata a sorrir e a falar pelos cotovelos, enquanto ele é taciturno. A entrada de Braxton em cena é similar à aparição de Chuck Norris em “The Expendables 2” (2012), ou seja, uma apoteose de alívio cómico. Bernthal, brilhante no streaming tanto na pele do Punisher da Marvel como no papel central de “American Gigolo”, agarra os holofotes que Affleck oferece e constrói um Exército De Um Homem Só trocista e rápido no gatilho. A sua sequência de apresentação é um primor de eficiência. Ele lembra o Schwarzenegger dos tempos de “Commando” (1985), só que com mais inteligência. É uma pena que O’Connor não saiba valorizar a joia que tem em mãos, exibindo do seu argumentista coerência e vitalidade artística.



















