Sustentado por (mais) uma imponente atuação de Ralph Fiennes, “The Return” (O Regresso de Ulisses, em Portugal) é um corpo estranho na seara cinematográfica do épico, à qual se filia, e da qual fazem parte a trilogia “O Senhor dos Anéis” (2011-2003), de Peter Jackson, e “Braveheart” (1995), de Mel Gibson. Diferentemente desses parentes mais velhos, a recente imersão nos cinemas em “A Odisseia”, de Homero, não parece dar o mínimo relevo ao timbre de aventura (e de ação) tão valorizado pelos seus congêneres, preterindo a adrenalina em prol da dor. O timbre “epicizante” das narrativas históricas está lá, assim como a dimensão geopolítica essencial às boas sagas, num empenho de oferecer à plateia um mapeamento mínimo do mundo que os gregos celebrizaram nas suas poesias como “O” espaço de protagonismo de um Ocidente milenar. No entanto, a dramaturgia filmada por Uberto Pasolini Dall’Onda (sobrinho de Luchino Visconti) opta por um estudo (dos mais profundos) de personagem. Um personagem quase sempre limitado a um arquétipo, o guerreiro Odysseus (Ulisses, na tradução lusa). Fiennes encontra nele camadas que o cinema (e talvez nem a literatura ensaística das universidades) jamais viu. Vemos uma imersão em angústias e vulnerabilidades que verso algum antes valorizou. Pasolini interessa-se mais pelas cicatrizes do que pelos feitos do seu herói, embora o seu devir heroico esteja em cena, de veias inchadas, a explodir. Rico em igual medida é a análise de Penélope, paixão desse homem de guerra, a quem Juliette Binoche representa como um signo de retidão… e de espera. Essa opção é inusitada e, sob um certo prisma, viçosa o suficiente para fazer da longa-metragem um exercício de maturidade em uma indústria vorazmente subjugada a abordagens infantilizadas. Apesar disso, pode (e vai) frustrar quem espera um espetáculo capa e espada pop. Longe disso.
 
Economista de formação, com experiência como investidor (e sangue de nobre, com status de conde), Uberto consolidou a sua reputação no cinema como produtor. Meeting Venus (“Tentação de Vénus”pt/ “Encontro com Vênus”br, 1991), com Glenn Close, garantiu-lhe alguma autonomia e, seis anos depois, “The Full Monty” (“Tudo Ou Nada”) assegurou-lhe respeito artístico e uma receita de US$ 258 milhões. Passou de seguida à realização e filmou três longas metragens antes de se lançar em “The Return”, de 2008 a 2020, numa aposta contínua em retratos doces de reconfiguração afetiva. Esse é o o seu tema por excelência. Chegou aos Orizontti do Festival de Veneza com “Nowhere Special” (“Sempre Perto De Ti”), há cinco anos, e foi só. A troca com os escritos homéricos levam o realizador a dimensões mais ambiciosas… e ao risco.

Marius Panduru, diretor de fotografia romeno, parceiro habitual de Radu Jude (até no recente “Kontinental’ 25”), é o maior aliado de Uberto no empenho em se arriscar a retratar a Grécia da Antiguidade sem os vícios do cinema clássico. “The Return” não é um filme de glórias, que clame por planos abertos, tampouco é um painel como “Quo Vadis” (1951). Aliás, nem a Hollywood ele pertence, o que facilita o distanciamento das regras que servem de pilar a um storytelling de vencedores em ebulição. Aqui é um enredo de derrota. É crepúsculo anunciado. Daí Panduru apostar tanto em cores terrígenas, em tons de terra.  

O império que Odysseus/Ulisses (Fiennes) defendeu parece não mais fazer sentido quando ele vregressa, traumatizado, à Ítaca após um combate em Troia, num conflito movido por vaidades que fazem mal a qualquer reino. Uberto colaborou no argumento com John Collee, calçado num rascunho que o dramaturgo Edward Bond escreveu nos anos 1990; entre outras coisas. O script fala de um homem que conheceu o medo e não gostou do que viu.

Ao ver Penelope e o filho, Telémaco, em perigo, Odysseus/Ulisses reage. A trama que vemos parte dessa reação. Só não espere nada glorioso ou redentor dela. O protagonista aprendeu que o fogo só arde e queima. As cantilenas ufanistas dos filmes hollywoodianos sobre argonautas de nada valem aqui. O épico aqui tende ao drama, construído das vísceras da personagem central e do fôlego do seu intérprete (Fiennes) em estado de graça, numa montagem seca.

Não se trata de um filme que empolgue, como empolgam as produções formatadas para derramar sangue. A empolgação aqui vem da inteligência e evoca o belo trabalho que o próprio Fiennes fez como realizador em “Coriolanus” (2011).

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
the-return-e-uma-odisseia-intimista-alheia-a-formulasMarius Panduru, diretor de fotografia romeno, parceiro habitual de Radu Jude (até no recente “Kontinental’ 25”), é o maior aliado de Uberto Pasolini no empenho em se arriscar a retratar a Grécia da Antiguidade sem os vícios do cinema clássico.