Aurora deixou família e amigos em Portugal e emigrou para a Escócia, na esperança de uma vida melhor. Confinada entre o local de trabalho e a solidão que partilha com os colegas de apartamento, resiste às condições desumanas da exploração capitalista“. Esta é a sinopse do surpreendente filme ficcionalOn falling’’ (2024) da estreante realizadora portuguesa, Laura Carreira (1994- ; ela nasceu no Porto), há alguns anos radicada na Escócia, estudou Realização Cinematográfica na Universidade de Edimburgo.

Talvez quando fazemos compras online, não nos damos conta de como é a realidade laboral de quem diariamente separa milhões de produtos para fazer chegar em nossas casas. Este é o trabalho de Aurora, personagem interpretada por Joana Santos (1985-). Ela trabalha como “picker”, passa longas jornadas com um leitor de códigos de barras nas mãos, que apita sempre com urgência, recolhendo produtos para serem enviados aos clientes, uma vida laboral rotineira e maquinal. 

Nos chamados centros de distribuição das grandes empresas de vendas online (ao estilo AMAZON), como aquele retratado no filme, não são, portanto, robôs que preparam o os produtos que muito de nós compramos na internet, são seres humanos pressionados pela produtividade excessiva, que percorrem enormes prateleiras à procura dos produtos, tendo o ritmo de trabalho avaliado por máquinas e apps digitais. Um trabalho repetitivo, desgastante, insano  e desumano. E como recompensa, além do salário miserável que não basta para comer e pagar as contas do mês, no caso de “On falling’’, a personagem recebe um prémio humilhante, uma barra de chocolate dada pelo seu Supervisor, expondo a infantilização do local de trabalho.

Quando Aurora finalmente vai ter a oportunidade de outro trabalho, fracassa na entrevista. Perguntaram-lhe o que ela gostava de fazer no tempo livre, e fica bloqueada, sem resposta, uma vez que tem parco tempo livre e ocupa-o lavando roupas, comendo pasta, sopa ou uma sanduíche, e vai dormir cedo, pois precisa acordar no dia seguinte para trabalhar num grande depósito de produtos vendidos pela internet. Um trabalho invisibilizado, precário e deprimente, com repreensões passivo-agressivas. 

Não há saída possível para seres humanos em trabalhos alienantes e manipuladores; eles roubam a vida das pessoas, deixam-os impotentes, causam-lhes exaustão física e mental. O filme “On falling’’ mostra bem esta realidade; a realizadora capta e põe em evidência a banalidade e a estranheza do ambiente de trabalho ao qual Aurora está inserida.

Outro tema do filme, além dos males causados aos trabalhadores pelo capitalismo selvagem, é a migração. No centro de distribuição abordado no filme da realizadora Laura Carreira, vemos na sua maioria, assim como Aurora, trabalhadores imigrantes de países periféricos da Europa (e não só), pessoas sendo exploradas pela sua força de trabalho, pouco qualificada e barata. Uma empresa controladora, com jornadas exaustivas, que exige alta produtividade das pessoas como se elas fossem máquinas. O chefe nem sequer sabe o nome dos funcionários, que são tratados como números, de forma anónima. Um sistema que coisifica a pessoa e intenciona transformar o ser humano em robôs, em autómatos, que cria uma atmosfera artificial no ambiente laboral distanciada da necessidade real da classe trabalhadora, visando aliená-la. Um sistema que visa a acumulação de capital, a exploração humana, o consumismo e o uso da tecnologia sem limites.  Os abusos do capitalismo são ainda pouco discutidos no cinema. 

Sobre a migração na Europa, não custa destacar que, desde junho de 2024, a União Europeia vem estabelecendo um conjunto de leis para barrar a entrada e banir imigrantes de países pobres e pessoas da classe trabalhadora pouco qualificadas. Quando são úteis, são usados, quando não servem, são descartados. É o que tem nos mostrado a realidade.  

Voltando ao filme, a câmara segue Aurora (imigrante portuguesa que vive na Escócia) todo o tempo no seu cotidiano repetitivo, desolador e sem futuro, entre o local de trabalho e onde vive, num apartamento partilhado com outros migrantes, pessoas também em situações frágeis.  

A única vez  que Aurora tem a oportunidade de alguma diversão, é levada pelo colega de casa a um bar da esquina da rua onde mora. Ela, carente de afeto, em vão, interessa-se por ele, que a ignora. Ela não tem amigos, nem família na Escócia, e os seus colegas de casa pouco se falam, não interagindo uns com os outros. Assim como ela, eles não têm tempo para viver, tudo que fazem é trabalhar, e todos têm o telemóvel como companheiro. A vida deles é solitária e sem afetos alegres.

O salário de Aurora mal dá para pagar as contas do mês, não dando igualmente para comer bem. Vai para o trabalho com outra portuguesa (com quem divide a gasolina) que sonha voltar ao seu país, Portugal. Sonha em fugir do clima de chuva e frio infinitos da Escócia, fugir da solidão e do lugar onde o céu é quase sempre cinza e parece nem haver luz natural/solar. 

Não por acaso, a ficção é filmada em tons escuros e em locações pouco iluminadas, tornando-se impossível distinguir se é dia ou noite. A maioria das cenas são internas, rodadas com planos mais moventes e próximos das personagens, expondo a sua impotência. 

A excelente direção de Laura Carreira somada à atuação da atriz portuguesa Joana Santos, sem exposição das emoções – como se escondesse os seus sentimentos e as angústias internas -, intensifica o que vive a sua personagem. Além de expor a sua identidade deslocada no distante mundo que a abriga, sem de facto acolhê-la. A única expressão que vemos em Aurora são os seus olhos sempre amedrontados.

“On Falling” é coproduzido pela produtora de Ken Loach (a Sixteen Films), o cineasta  britânico do realismo social. Durante 1h44min, a realizadora, estreante em longas metragens, surpreende positivamente pelo modo como retrata as impiedosas condições de trabalho do mundo capitalista, condições que desestabilizam e degradam o ser humano. Um drama social realista ao estilo Ken Loach. Está em cartaz nos cinemas de Portugal e MERECE MUITO SER VISTO! Recebeu prémios nos festivais de cinema de San Sebastian-Espanha e no BFI London Film Festival, entre outros.

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Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
on-falling-sobre-a-exploracao-capitalistaNão há saída possível para seres humanos em trabalhos alienantes e manipuladores; eles roubam a vida das pessoas, deixam-os impotentes, causam-lhes exaustão física e mental. O filme “On falling’’ mostra bem esta realidade, a realizadora capta e põe em evidência a banalidade e a estranheza do ambiente de trabalho ao qual Aurora está inserida