Fundado em 2008 na Ucrânia a partir de conhecimento de histórias de mulheres ucranianas que foram enganadas ao ir para o exterior, para depois serem exploradas sexualmente, o coletivo FEMEN tem sido uma das maiores dores de cabeça do patriarcado, expandindo as suas ações além do território da Ucrânia, sediando-se agora em Paris. Um pouco por toda a Rússia, Ucrânia e muitos outros países europeus, as ações da FEMEN – que normalmente envolvem protestos de ativistas em topless –  sempre primaram pela defesa da mulher, sendo concretamente definida como um grupo feminista antirracista e anti-homofóbico que encontrou na religião, fosse católica, ortodoxa, judaica ou islâmica, uma força de bloqueio para a igualdade de género.

É essa questão, se o feminismo e a religião podem coexistir sem colisão, que o documentário “Girls & Gods”, assinado por Arash T. Riahi e Verena Soltiz, se debruça, colocando no centro dos diálogos que assistimos, sobre a subordinação da mulher ao homem que muitos textos religiosos advogam, Inna Shevchenko, peça central da FEMEN.

Estreado no CPH:DOX (Festival de Cinema Documental de Copenhaga), “Girls & Gods” mostra Shevchenko numa jornada por múltiplos países e cidades para conhecer mulheres com uma variedade de visões e experiências, discutindo os direitos das mulheres e a religião em que se inserem, e como essas mesmas mulheres enquadram a interpretação dos textos das religiões que seguem. Dos EUA à Europa, conhecemos muitas histórias de dissidentes, falando de países particularmente problemáticos para a afirmação de igualdade da mulher como o Irão ou a Rússia, com a presença de Nadya Tolokonnikova, membro fundadora do Pussy Riot, a fortalecer um documentário que é uma verdadeira “mesa redonda” de debate sobre a condição da mulher, do que propriamente sobre as ações e visões da FEMEN.

Extremamente dinâmico na sua montagem e vasto na busca de diálogos construtivos sobre a matéria, “Girls & Gods” não esquece o mundo das artes e da cultura como componente primordial para a transgressão e protesto, mas igualmente mostra como ele serve, do outro lado da barricada, para cimentar ideias conservadoras, muitas vezes imprimidas pelas lideranças religiosas, maioritariamente compostas por pessoas do sexo masculino. Mas assistimos também a cultos já liderados por mulheres e como novas interpretações de textos arcaicos são olhados, contribuindo assim para uma conversa mais alargada sobre como o papel da mulher pode ser revisto em todas as sociedades.

O resultado final é uma coleção de depoimentos que mostram perspetivas de diferentes do feminismo, do ser mulher, com temas como o aborto, o hijab, a sexualidade e a separação entre igreja e o estado a servirem de ponto de partida para visões enriquecedoras de um diálogo que se vai prolongar durante muito tempo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
girls-gods-vamos-falar-sobre-a-mulherUma coleção de depoimentos que mostram perspetivas de diferentes do feminismo, do ser mulher, com temas como o aborto, o hijab, a sexualidade e a separação entre igreja e o estado a servirem de ponto de partida para visões enriquecedoras