Repleto de controvérsias praticamente desde a sua génese, com o ator Peter Dinklage a contribuir para que a Walt Disney Studios se comprometesse a reformular a abordagem às personagens dos “sete anões”, evitando o prolongar dos estereótipos, e a atriz Rachel Zegler a criticar a forma como a sua personagem, Branca de Neve, no original, enaltece a sua “história de amor” com um Príncipe “que literalmente a persegue”, a nova versão de “Branca de Neve”, construída a partir da visão fantasista da animação de 1937 (já de si uma versão adocicada do clássico dos Irmãos Grimm), tem um olhar “mais moderno”, mas muito sensaborão para sobreviver além da sua duração.

Obstinada a levar a história de animação aos cinemas como o fez com outras tantas propriedades (pense-se em “Rei Leão” e “A Pequena Sereia” apenas como exemplo), o estúdio do rato Mickey pretendia não só um lucro financeiro nas salas, mas principalmente capitalizar uma propriedade para novas gerações “amarradas” ao streaming e que podem visitar os seus parques temáticos, a verdadeira mina de ouro.

Por isso mesmo, com mais ou menos polémica, o filme avançou com aquilo que podemos chamar de ajustes da modernidade, laivos pseudo-progressistas insuficientes para trazer qualquer tipo de frescura a uma história que continua a mostrar reinos exemplares que entram na obscuridade quando a sua figura-chave, o Rei, desaparece para defender o reino. Agora no poder está uma Rainha “Má” (Gadot), uma madrasta que tem como objetivo ser a mais bela de todas do reino, e que, por isso, ordena que Branca de Neve, a sua enteada, seja morta. A pequena Branca de Neve, por entre cantorias tão simpáticas como esquecíveis, acaba por escapar para um bosque encantado onde vai travar conhecimento com os Sete Anões (termo nunca utilizado para as pessoas com nanismo que vemos em cena), num live-action com tantas toneladas de CGI que, apesar de aumentar a sensação de fantasia, não ajuda particularmente a inserir o espectador num mundo que, por mais tecnológico se sinta, é do mais bafiento possível em valores (e entediante). Muita da culpa disso pode-se atribuir ao argumento escrito por Erin Cressida Wilson, pouco dado ao arrojo e que, além de fracassar em impor a Rainha Má como uma vilã implacável, entrega um interesse amoroso tedioso à Branca de Neve, na forma de Jonathan (Andrew Burnap), um bandido arrogante e derivativo que parece sair do universo Robin Hood.

Mas voltando à Rainha Má, Gal Gadot enfia-se na personagem em conseguir soltar-se das amarras do dèjá vu narrativo e estético, perdendo – a léguas – no carisma perante nomes como Angelina Jolie e Charlize Theron que, cada uma da sua forma, encarnaram a mesma personagem (e muito melhor) em “Branca de Neve e o Caçador” e “Malévola”. Já Rachel Ziegler, a estrela de “West Side Story”, de Steven Spielberg,  assume o papel titular da Branca de Neve com rigor e inocência, mas sem qualquer potência, inclusive musical, numa banda-sonora onde os velhos temas da Branca de Neve de 1937 se misturam com as novas músicas de Benj Pasek e Justin Paul (“La La Land” e “The Greatest Showman”), cumprindo nos mínimos, mas ficando longe do estatuto de épico ou vagamente memorável.

O resultado final é um remake inerte vindo do realizador Marc Webb, cineasta que nunca consegue mostrar primor ou relevância artística, sendo particularmente surpreendente (pela negativa) a direção artística de Kave Quinn (prima pelo artificial e não mágico) e o guarda-roupa reimaginado por Sandy Powell, que tão agarrada na homenagem aos traços da animação original apenas acentua o odor a bafio da proposta.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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