Existe um drama óbvio em Hollywood para conseguir renovar as suas estrelas do cinema de ação no masculino. Para isso basta olhar para a idade de Tom Cruise (62), Jason Statham (57), Liam Neeson (72), Keanu Reeves (60), Gerard Butler (55), Vin Diesel (57), Dwayne Johnson (52), Mark Wahlberg (54) e Ryan Reynolds (48). São estas figuras que continuam a dominar nos filmes de ação norte-americanos (ou “americanadas”, como dizemos), com Charlie Hunnam (44), Chris Hemsworth (41), Chris Evans (41), Henry Cavill (41), Aaron Taylor-Johnson (34), Bill Skarsgård (34) e Glen Powell (36) a surgirem como alternativas viáveis, mas muito longe do estatuto das “estrela” que as décadas de 80, 90 e 00’s nos ofereceram.
É nesse contexto em tempos pós “John Wick” (2014), que modelou o cinema de ação e pancadaria atual, mesmo no jogo macabro e sadista da espetacularização da morte sob doses fartas de humor negro, que surge “Novocaine”, um filme que tem como herói improvável o ator Jack Quaid, o filho de Meg Ryan e Dennis Quaid. Com a comédia de ficção científica “Companion” no seu currículo recente, este ator que vimos na série “The Boys” ou em “Hunger Games” desempenha aqui o papel de Nathan Caine, um bancário introvertido que nasceu com uma rara condição genética que o torna incapaz de sentir dor física. É essa condição médica que será usada como engenho para a ação e inúmeras tentativas de humor negro, pois o homem parte em perseguição de um grupo de assaltantes do banco em que trabalhava, após estes sequestrarem a mulher com quem se envolveu recentemente.
Há, de certa maneira, uma aproximação nostálgica aos filmes dos anos 80 e 90 no desenrolar da história e procedimentos narrativos de um homem, afastado do modelo de herói tradicional, ser chamado à ação por uma vaga noção de amor, mas essencialmente todo o filme é um festival de sadismo e violência estapafúrdia onde não faltam queimaduras graves, ossos a rasgarem a pele, flechas de bestas a atingirem corpos e, claro, tiros à fartazana e um par de perseguições automóveis. E tudo isso numa tentativa de comédia extremamente negra que se pensarmos bem assenta apenas numa única piadola: o herói não sente dor, então vai lutando com esse “superpoder” (há um piscar de olho aos tempos atuais de super-heróis improváveis) para sua vantagem.
O problema disto tudo é que a sucessão de tentativas de graça em torno dessa condição esgota-se rápido, tornando-se cansativo o desenrolar de um filme que no registo de ação circula algures entre “Crank”, “John Wick” e “Nobody”, sem qualquer personalização estética que o leve para além do caráter de entretenimento monótono e derivativo- onde não falta ainda uma dose farta de romance piroso. Nesse sentido, a verdade é que a dupla de cineastas, Dan Berk e Robert Olsen, apenas mostra ser capaz de recorrer aos chavões e clichés do género, permitindo apenas a Jack Quaid dar um ar da sua graça como estrela atípica envolvida numa trama previsível, até mesmo nos poucos twists que o filme tem para nos oferecer.




















