Neste momento em que o planisfério cinéfilo descobre nuances da ditadura militar vigente de 1964 a 1985 no Brasil, ao acompanhar a carreira de “Ainda Estou Aqui” na corrida pelo Oscar 2025, uma colossal reconstrução de época com foco na ditadura militar chamada “A Batalha da Rua Maria Antônia” enfim ganha data de estreia no seu país, quase um ano e meio após a sua consagração no Festival do Rio. O thriller político de Vera Egito arrebatou o júri da maratona cinéfila carioca, seduziu o público e gerou debates inflamados numa revisão histórica dos Anos de Chumbo. Apesar disso, passou um longo tempo sem espaço em circuito até ter, enfim, vaga para estrear. O seu lançamento será no dia 27 de março.
Em 2023, o júri da Première Brasil do Festival do Rio presidido pela diretora Laís Bodanzky (“Bicho de 7 Cabeças”) valorizou o risco absoluto corrido por Vera numa narrativa em preto e branco de estética nervosa. Indicado a prémios em festivais em Valladolid e Chicago, “A Batalha da Rua Maria Antônia” impôs-se na tela do evento a partir de um jogo de armar estruturado a partir de 21 planos-sequência.
Um espetáculo entre o drama e a ação se forma na recriação proustiana de 1968, o chamado “Ano Que Não Acabou”, como diz o livro homónimo de Zuenir Ventura. A sua estrutura formal chega a ser inóspita no seu arranjo nada convencional de ideias. Arma-se um teatro de máscaras na trama quando o líder estudantil Benjamim (Caio Horowicz, atómico na atuação) aparece no campus da Faculdade de Filosofia da USP para manter os seus colegas fora das CNTPs (condições normais de temperatura e pressão). Ele agita a sua turma e outras em meio a uma batalha, em outubro do 68. Os seus métodos são sedutores, mas parecem desrespeitar os códigos de ética e sentimentos. Benjamin encena um jogo de decapitações com os seus companheiros de aula e incomoda, em especial, uma atormentada professora, Leda (Gabriela Carneiro da Cunha, em estado de graça).
Em nome da democracia, Benjamin tenta manter inflamado o corpo discente e o docente da instituição. Há gente ali abalada por mágoas afetivas. Outras temem a foice do Estado que vestia farda na época. Mas um grupo reage à mordaça do governo, sendo oprimido pela direita radical.
Na direção de fotografia, Will Etchebehere ricocheteia por planos de triagem de diferentes salas, corredores e centros académicos de uma faculdade encarada, à época, como o ovo da serpente dos inimigos do governo de farda. A montagem de Julia Zakia galvaniza o fluxo de imagens cor de chumbo, penumbrosas, revivificando um pretérito imperfeito, que reside como morto-vivo no imaginário sócio-político da nação.
Num roteiro enxuto, mas bastante provocante, a realizadora de “Amores Urbanos” (2016) discute resiliência, combate e inércia à luz da brasilidade. No seu agonizante filme, a luta simbólica de 1968 é um espaço de afirmação de identidade. É um ritual que nos baliza pela resistência e que espelhou combates recentes, na Era Bolsonaro. O que acontece é que esse ritual despertou as bestas e invocou diabos. É o que o filme mostra, sobretudo na figura mefistofélica de Benjamin construída por Horowicz.
Numa linha de edição que assume o número dos planos qual fosse um relógio, a contabilizar a armação e a explosão inevitável de uma bomba moral, Vera “encena” a São Paulo do fim dos anos 1960, menos pelos e mais pelas impressões do que o passado teria sido. Concentra tudo num tempo curto, numa noite definitiva. As personagens enfrentam os ataques do Comando de Caça aos Comunistas vindos do outro lado da rua, da Universidade Mackenzie. Quando o confronto explode, cocktails molotov, pedras, paus e bombas são atiradas. É uma narrativa de 24 horas nas quais conflitos afetivos, tensões sexuais, ciúmes e traições ideológicas (concentradas na professora Lea), revisitam o passado da América do Sul.




















