Fábrica mais produtiva de dramaturgias de terror da literatura desde 1974, quando se fez notar à força dos sombrios parágrafos de “Carrie”, Stephen Edwin King nunca se satisfez apenas com o sobrenatural, num esforço para que os seus contos e romances mapeiem os espaços territoriais onde se ambientam num painel comportamental da América. Alinha-se, desse modo, à tradição mais sólida dos EUA na prosa, o painelismo, que inclui os modernos, os beatniks e a pós-modernidade em toda a sua fluidez de valores, ao encarar o real como se fosse uma instância “líquida”. Essa “liquidez” sensorial, apontada por teóricos como o sociólogo polaco Zygmunt Bauman (1925-2017), não se aplica a King, que desenha as suas personagens sob uma linha de “Bem” e “Mal” sem dissonância aparente, numa gradação ténue do maniqueísmo. Ao delimitar arquétipos, ele estuda as fronteiras em que a perversidade residual em cada coração humano explode (ou imploda) galvanizada por vetores do Além, sem assumir contornos religiosos do Céu ou Inferno. Algumas entidades que assombram as suas histórias não têm um lastro de origem explicável. Elas são calcadas no mistério pleno, como é o caso do brinquedo que dá título à historieta “The Monkey” (“O Macaco”), filmada com destreza por Osgood Perkins nas raias do riso… e do trash.
Publicado originalmente na revista “Gallery”, em 1980, esse texto foi revisto pelo autor e ganhou reedição na coleção “Skeleton Crew”, em 1985. A sua trama gera uma alusão direta com um património da literatura horrífica, “The Monkey’s Paw” (1902), do inglês William Wymark Jacobs (1863-1943). Nela, a mão embalsamada de um símio atribuía a quem a possuísse uma série de desejos que, quando realizados, cobravam um preço (quase sempre de vida) dos desejantes. A dinâmica em “O Macaco” também passa pelo querer, mas envolve um fetiche, ou seja, um objeto no qual se deposita uma vontade e um valor simbólico. O objeto em questão é um boneco de corda que toca um tambor. Cada vez que alguém expressa fúria contra um outro indivíduo na posse desse brinquedo e gira seu dispositivo, ele gera uma onda de mortes brutais, das formas mais inusitadas. Não se sabe quem o criou, nem como ele mata, mas o bicho é perigoso.
Depois de explorar a ideia de que a Maldade (a mística) habita este plano e contamina as pessoas num contágio silencioso, como expôs no êxito de bilheteira “Longlegs” (2024), Osgood Perkins encontrou na premissa de King a deixa ideal para seguir a sua linha temática autoral de pesquisa sobre manifestações de forças tenebrosas em sociedades do interior, distantes das metrópoles. Ator profissional, com vasta quilometragem nas salas de cinema, ele já havia filmado longas-metragens eficazes antes, como “The Blackcoat’s Daughter” (2015) e “Gretel & Hansel” (2020). Ambos se destacam por uma aposta radical em ângulos de câmara pouco ortodoxos e pela recorrente necessidade de contemplar as paisagens onde se desenrolam. É como se o ambiente fosse o vetor de desestabilização das personagens do cineasta, que é filho de Anthony Perkins (1932–1992), o eterno Norman Bates. Essa dinâmica – o seu traço de autoria – regressa em “The Monkey”, que arrebata pela sua habilidade de provocar risos nervosos nas situações mais brutais.
Nico Aguilar, diretor de fotografia, saído de “Killers of The Flower Moon” (2023) e “Pedro Páramo” (2024), encaixa-se com perfeição na aeróbica de enquadramentos (jamais gratuitos) delineada por Perkins a fim de olhar o dia a dia de um canteiro do Maine à luz das estranhezas que lá se passam. Qual fez em “Longlegs”, o cineasta aposta num colorido retinto, a acentuar o detalhismo da sua direção de arte.
As personagens centrais são os gémeos Hal e Bill, interpretados com galhardia por Theo James. Ainda pequenos, eles ficaram sem pai, que desapareceu no mundo. A figura paterna só deixou uma estranhíssima figura de plástico e peluche, de forma simiesca, com uma percussão. Parece ser apenas uma action figure sem valor, até os irmãos perceberem que aquele “bicho” tem o poder de ceifar corpos. A ama deles morre em circunstâncias estranhas. A mãe é a próxima vítima, a perecer numa sequência assombrosa. Eles vão morar com uma tia e um tio e, em pouco tempo, o Macaco volta a manifestar as suas habilidades sinistras. Os dois enterram-no e tentam ensaiar um novo caminho para as suas rotinas.
Passados 25 anos, conforme Hal (agora pai) tenta manter uma difícil relação com o filho adolescente, novas bizarrices começam a acontecer, o que o leva a pensar que o Macaco está à solta, novamente. A sua maior preocupação é proteger o seu rebento, sob o temor de que Bill, numa aura de Caim versus Abel, queira se livrar dele e do sobrinho.
Esse é o contexto de que Perkins parte, sob a produção meticulosa (orçada em US$ 11 milhões) de uma outra marca autoral, James Wan, realizador de “Saw” (2004) e idealizador da franquia “The Conjuring” (2013-2025), para esgarçar os limites entre o horror e o patético. A “doença” que atira irmão contra irmão desde o ventre materno é o mote para que ele volte a um dos assuntos recorrentes da sua filmografia: a sobrevivência das espécies num determinismo que é amplificado pela falta de empatia. A América do seu cinema não é das mais altruístas. Ele ri dela, mas fá-la sangrar, sob o induto de King.




















