Divine G pertence à mesma linhagem de personagens onde estão Manny (vivido por Henry Fonda em The Wrong Man, de 1956) e Joe Wilson (encarnado por Spencer Tracy em Fury, de 1936). Os três são pessoas da melhor qualidade que, por um acaso, foram presos (sem hipóteses de indulto) por delitos brutais que jamais cometeram. A diferença do presidiário interpretado por Colman Domingo, em Sing Sing, para os demais é o racismo que o acossa. A hipótese de que, na prisão, a segregação pela cor da pele seria neutralizada pelas medidas protetivas do cárcere não passa de uma escusa retórica. A argumentação que disfarça a intolerância racial sofrida pelo “divinal” G – cujo nome na ficha da cadeia é John Whitfield – é o facto de ele ser um ator. Por ter essa profissão, ele teria a habilidade de fingir a dor que deveras sente, na lógica supostamente existencialista do Estado. Contudo, fingidor é uma coisa que ele não é, apesar de a Lei não entender isso.

Ao tentar convencer uma equipa de assistentes sociais de que já é hora de recuperar a liberdade, após um looongo período atrás das grades, Divine G é esmagado por uma pergunta: “O senhor está a encenar?”. Outrora um ator e bailarino em ascensão, ele é espatifado por essa questão. Os closes de câmara são funcionais para o entendimento da angústia, expondo uma aeróbica de enquadramentos nada banal da fotografia de Pat Scola. A forma como Colman traduz a sua atomização, na quietude, num jeito de engolir em seco, numa tensão das veias na sua face, é a razão pela qual ele entrou, uma vez mais, na disputa pelo Oscar. Concorreu antes (em 2024) por “Rustin”, hoje na Netflix, mas não ganhou. Sua atuação mais recente – superior à anterior – traz à tona uma frase de Daniel Day-Lewis em The Boxer (1997), de Jim Sheridan: “Na prisão, o silêncio se torna o seu melhor amigo”.

Silencioso por polidez e prudência, G é forçado a falar por inquisidores do governo. Até ele ter de enfrentar a tal demanda sobre fingir ou não fingir (eis a questão), Sing Singestrutura-se como um exercício antropológico sobre a reinserção social pelas artes cénicas. Após a sequência acima descrita, o filme vira um desabafo sincero sobre a exclusão, mas também sobre o sonho. A falta de credibilidade que G sofre diante dos agentes da liberdade condicional é uma das violências simbólicas que vive, galvanizada pela maneira como a gestão prisional trata as populações negras num país assolado por imposturas racistas institucionais. O dilema da trama não se concentra na chance de Divine transcender pela oportunidade de atuar (como os seus anúncios publicitários fazem crer) mas, sim, na educação sentimental (pela pedra) que passa para saber digerir a invisibilidade de que é alvo. A sua missão é saber lidar com a inércia da máquina estatal.


Ímã de lágrimas (e de aplausos) na sua passagem pelo TIFF, o Festival de Toronto, em 2023, a produção de US$ 2 milhões foi batizada com o nome de um dos centros de detenção mais temidos dos EUA, localizado em Nova Iorque, onde o enredo se ambienta. O território é um signo de controle, pautado pela força. No entanto, não se ressaltam grilhões ou mordaças na longa-metragem do realizador Greg Kwedar (de Transpecos). O amordaçar das pessoas que filma é flagrado pela via da subtileza. A ordem é introjetada, numa lógica que evoca teses do livro Vigiar É Punir, de Michel Foucault, segundo as quais a patrulha é assimilada pelo condenado como se fosse um Big Brother silente e invisível. Um Grande Irmão somatizado.

Naquele perímetro da geografia nova-iorquina, a estrutura narrativa adotada por Kwedar comporta-se com procedimentos semidocumentais até se abrir ao melodrama e mergulhar de cabeça (sem boias). O cineasta escreveu o argumento com Clint Bentley de prosa com os livros “The Sing Sing Follies”, de John H. Richardson, e “Breakin’ the Mummy’s Code”, de Brent Buell. O foco é uma ala onde um grupo de teatro carcerário engata a montagem de um espetáculo por meio do programa Rehabilitation Through the Arts (RTA).

As vivências de Clarence “Divine Eye” Maclin, ex-presidiário condenado a 17 anos que se reinventou fazendo peças em Sing Sing, são fundamentais para a dramaturgia. Ele é parte do elenco e concorre com os argumentistas ao Oscar pela sua contribuição na construção de estrutura dramática e diálogos. Sob a realização de Kwedar, Maclin encarna uma personagem batizado com o seu próprio apelido e leva à tela as suas cicatrizes pessoais reais. Em certa medida, ele é a argamassa da longa-metragem, mas é também uma cilada para o projeto teórico de Kwedar. Por vezes, não sabemos se o cineasta deseja falar dele e da sua fúria (que arrefece do nada, sem uma justificação crível) ou de G. A montagem de Parker Laramie é confusa ao lidar com esse impasse.

A sua forma de editar tem mais sorte ao nos aclimatar naquele microcosmos. Por entre celas, Divine G (Colman) tem o apreço e o respeito dos seus colegas de RTA pelo seu talento e por uma intimidade com a dramaturgia. A sua trupe está empenhada em montar um texto chamado “Breakin’ the Mummy’s Code”, uma colcha de retalhos lúdica com Shakespeare e Robin Hood. Nesse momento de ensaios, Divine Eye junta-se a eles, esbanjando raiva. Pouco a pouco, a sua violência se represa, entretanto, a indignação de Divine G só faz crescer diante das injustiças que sofre.

Convulsivo a partir da segunda metade da fita, Colman foi buscar o conceito de MA, a expressão japonesa que simboliza um ‘entre-lugar’, um espaço vazio, um intervalo entre elementos, um hiato entre o querer e o poder. Essa proposição filosófica processa-se em cena numa ruptura com as convenções causais do cinema (sobretudo o americano) segundo as quais cada gesto de uma personagem terá uma reação que mudará os passos. Pouco muda para G. O que interessa à película é a perceção do quanto ele resiste e do quanto se vulnerabiliza. Ao som da canção original “Like a Bird” (assinada por Abraham Alexandere e Adrian Quesada), nomeada ao Oscar, G apenas tenta seguir em frente, deglutindo o retardo recorrente da sua libertação. Nessa espera, a referência ao monumental “César Deve Morrer” (Urso de Ouro de 2012), dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, sobre a encenação de peças em casas de detenção salta aos olhos como um parâmetro de excelência na genealogia da reabilitação, na microfísica da empatia.  

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
sing-sing-vigiar-nao-e-punir-e-fazer-sonharNaquele perímetro da geografia nova-iorquina, a estrutura narrativa adotada por Kwedar comporta-se com procedimentos semidocumentais até se abrir ao melodrama e mergulhar de cabeça (sem boias)