Base de operação para grifes autorais variadas como Cibele Amaral (“Momento Trágico”), Renê Sampaio (“Eduardo e Mônica”) e José Eduardo Belmonte (“Subterrâneos”), o Distrito Federal brasileiro, que serve de capital para aquele continental território sul-americano a partir de Brasília, tem se destacado (sobretudo na cena dos festivais) como fábrica de narrativas de género. Por décadas a fio, aquele perímetro latino-americano foi um foco para expressões de não ficção, em especial pela atividade do documentarista paraibano (lá radicado) Vladimir Carvalho (1935-2024), em títulos como “Conterrâneos Velhos de Guerra” (1991). A excelência documental segue firme naquela zona, mas acabou por acomodar novas veias ficcionais na região da sua pátria conhecida como Centro-Oeste. De lá saiu um dos raras sci-fi do Brasil nas telas: “A Repartição do Tempo” (2016), de Santiago Dellape, exibido no Fantasporto. Erik de Castro virou uma marca naquele espaço urbano com thrillers de ação, como “Federal” (2010), “Cano Serrado” (2018) e “Amado” (codirigido por Edu Felistoque em 2022). Vem do DF um inusitado flirt da América do Sul com a estética das narrativas de super-herói: “Capitão Astúcia”, de Filipe Gontijo. Até a ala da crítica comumente avessa a histórias de vigilantes rendeu-se ao seu frescor no debate do etarismo.
O seu protagonista, Fernando Teixeira (de “Baixio das Bestas” e “Aquarius”), tem uma atuação em estado de graça na longa-metragem, coroada com o troféu de Melhor Interpretação no Festival de Vassouras, em 2023. Amparado numa direção de arte esplendorosa (de Lia Renha) capaz de tratar o mundo dos idosos com um desfile de cores, Gontijo faz de “Capitão Astúcia” uma cartografia do desamparo na terceira idade. Analisa ainda o papel da fantasia no combate ao desdém e ao abandono de quem é definido pela palavra “velho”.
O argumento escrito por Gontijo e Eduardo Gomes abre brechas para a aventura, regando a sua estrutura de adrenalina. No guião, o jovem Santiago (Paulo Verlings) vive frustrado com a sua carreira de pianista, assombrado pela fama que teve quando era miúdo. Era chamado de Kid Pianino em pequeno, por ser um prodígio em Bach, e é obrigado pelo pai a assumir essa alcunha de novo, agora adulto, num programa de variedades da TV. Obstinado em escapar de um revival na televisão, o rapaz se refugia no universo quixotesco de um avô que há tempos não via. Esse avô é uma “figuraça” (jargão do Brasil para pessoas exóticas, mas de alto astral). Ao interpretá-lo, Teixeira investe (com inteligência) na persona de ancião maroto, cheio de bossa e charme, habilidoso na arte de derreter corações na sua retórica romântica. O problema desse homem – outrora ligado à indústria das revistas de banda desenhada, num trabalho como letreirista – é acreditar que é um combatente do crime, como um Batman brasiliense. Encarnar o Capitão Astúcia passa a ser a sua razão de viver, apoiado pelo carinho de uma amiga (e algo mais), chamada Dulce, que arranca da atriz Nívea Maria (uma diva das telenovelas) um poético desempenho.
Astúcia tem até um inimigo, um Lex Luthor particular chamado Akira Laser (vivido por Yudi Tamashiro). Esse fanfarrão é um pianista demoníaco que utiliza raios nas suas apresentações para aceder a dimensões paralelas. Caberá a Astúcia dar cabo dele. o seu desafio é saber ser herói num país que despreza a população anciã.
Laureado em festivais na Espanha, na Itália e nos EUA, “Capitão Astúcia” trava plasticamente um flirt com a estética das BDs a partir da direção de fotografia de André Carvalheira, numa luz que dialoga com o colorido dionisíaco dos comics.




















