Inovadora nas artes gráficas, pelo desafio (antes de tudo) geométrico de construir uma BD sob a perspectiva de uma divisão de uma casa, Here (“Aqui”, em português) foi adaptado a filme em 2024, numa tradução audiovisual que dececiona o público leitor pela sua abordagem superficial da luta pela sobrevivência, em especial nas radiais do amor. O filme derivado dessa banda desenhada enfastia a plateia em cerca de 30 minutos (e olha que dura 1h44’ no total!) pela absoluta incapacidade de ir além de um truque narrativo (concentrar-se num só ângulo espacial), sem oferecer ao ecrã personagens que transcendam o moralismo. Richard McGuire é o autor dos comics que inspiraram a fita. A premissa original foi delineada como um conto ilustrado de seis páginas, editado em 1989, e acabou expandida como álbum de 304 folhas em 2014. Nessa experiência, o cartunista usou o seu poder de síntese a fim de criar um panóptico de uma sociedade em mutação. Na escrita, peripécias do cotidiano são a argamassa para uma Comédia Humana à moda Balzac que capta a falta de compostura e a desmesura de um mundo que se aburguesa. Flana pelo humor sazonalmente, e sem brilho, mas esbanja precisão ao desmistificar o lado trágico das relações (as afetivas, sobretudo).

Encontra-se na graphic novel uma carta de intenções artísticas a um só tempo estéticas e sociológicas, expressando por meio de um traço finíssimo no desenho, capaz de evocar visualmente a tira “Bringing Up Father”, de George McManus (1884-1954). Essa riqueza toda perde-se na sua transposição para as telas, no garrote imposto pela soncice ascética em que o cinema de Robert Zemeckis se perdeu – e por completo. O seu naufrágio nas bilheteiras, vergonhoso, é a prova da incapacidade que a sua adaptação tem em se comunicar com as inquietações da contemporaneidade.

Fotografado banalmente por Don Burgess, Here calça-se na destreza da montagem de Jesse Goldsmith para ir e voltar no tempo, e no espaço, em saltos que tiram a trama de um cartesianismo sequencial cronológico. Passado (às vezes pré-histórico) e presente (na época pós-covid-19) misturam-se sob a desculpa de vermos como a Terra transformou-se, dos dinossauros até o coronavírus de 2020, sob o ângulo de um terreno. Esse pedaço de chão já foi floresta, foi plantation e virou uma casa aburguesada, digna das tintas do pintor Norman Rockwell (1994-1978), “O” retratista dos EUA no que tal nação tem de felicidade patológica.

Ao filmar esse tal terreno, Zemeckis oferece saltos temporais inegavelmente virtuosos, como quase tudo o que já filmou (só até The Walk, de 2015). O problema é a dramaturgia que liga cada salto que dá entre eras. As personagens sem viço de (um insosso) Tom Hanks e de Robin Wright – escolhidos para repetir a química de Forrest Gump, que valeu o Oscar ao cineasta, em 1995 – afogam o que poderia haver de ousadia na produção de cerca de 50 milhões de dólares de orçamento.   

  
Eles vivem Margaret e Richard Young, um casal que se forma ali pelo fim da década de 1960, engravida prematuramente e gasta todos os projetos de futuro em trivialidades impostas pela aspereza da vida. Os pais de Richard no enredo, Rose e Al, ainda arrancam uma ou outra gargalhada, à luz do carisma dos intérpretes, Kelly Reilly e Paul Bettany, que estão em covalência plena. Os dois só não conseguem espanar a ode ao que existe de mais rasteiro no american way of life. Esse ranço, há décadas, impregna a filmografia de Zemeckis.

Revelado com comédias irregulares como I Wanna Hold Your Hand (1978) e Used Cars (1980), ele virou uma espécie de protegido de Steven Spielberg ao impressionar exibidores (e a cinefilia) com a agilidade dos seus planos e a capacidade de construir aventuras ligeiras. Após a imersão no inesquecível Back to the Future (1985–1990) e na fantasia Who Framed Roger Rabbit, de 1988, ele meteu a década de 1980 no bolso, por méritos narrativos notáveis. Nunca logrou disfarçar o conservadorismo, exponenciado em Cast Away (2000) e Flight (2012), que arrebatavam pela sua engenharia de mpontagem e por atuações colossais do próprio Hanks e Denzel Washington. Arranhou um olhar mais lúcido com “Contato”, em 1997, em parte pela pavimentação literária de Carl Sagan (1934-1996) e pela escolha de Jodie Foster. Preferiu, apesar disso, manter-se estagnado numa noção jurássica de bom comportamento que não se abre para as variáveis (éticas, sobretudo) do século XXI.  

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Rodrigo Fonesa
Jorge Pereira
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