Ídolo eletrônico de gerações que cresceram ou adolesceram com joysticks, o ouriço Sonic foi criado no Japão em 1990, por Naoto Ohshima e Yuji Naka, para a desenvolvedora de diversões digitais Sega. Não tardou a transformar-se num signo de cinemática, ou seja, da expressão narrativa do movimento, da fricção. Ganhou uma (esquecível) série de animação entre 1993 e 94, assinada por Ron Myrick, Dick Sebast e John Grusd, voltada para os miúdos (os mais pequenos) a explorar a dramaturgia dos jogos. O foco: a corrida atrás de argolas de poder e a fuga de armadilhas plantadas pelo Dr. Ivo Robotnik, um cientista à la Vincent Price. Pouco ficou de lembranças dos episódios dessa saga animada, porém, a figura do hedgehog superveloz nunca foi apagada da cultura pop. Às vésperas de a pandemia da covid-19 tossir e forçar o confinamento, a Paramount arriscou levar a personagem ao ecrã, num experimento híbrido de live action e CGI, com (o então recluso) Jim Carrey (limitado à série Kidding), como Robotnik. O resultado: uma faturação estimada em 319,7 milhões de dólares, mesmo com todos os tropeços enfrentados por circuitos exibidores frente ao coronavírus. Diante do bom acolhimento das plateias, o estúdio fabricou uma continuação, vista em 2022, que arrecadou ainda mais: 405,4 milhões. A parte 3, lançada às raias do Natal, era mais do que esperada. Só não se esperava que fosse tão boa.

Só a oportunidade de ver Carrey… e em dois papeis… com o mesmo ânimo dos tempos de Dumb and Dumber(1994) já justifica a atenção ao filme, realizado por Jeff Fowler (o mesmo dos títulos anteriores da franquia) com um pé fincado na adrenalina e outro no humor. A sua realização vai além do instinto caça-níqueis inerente a produtos infantojuvenis. Existe uma demanda forte por títulos ligados a games, sobretudo após Super Mario Bros. (em 2023), uma vez que o filão se impõe como alternativa mercadológica ao esgotar das jazidas das BDs. Outrora, longas-metragens derivadas de banda desenhada eram uma certeza de cifras altas. Hoje, não mais. Há que se encontrar uma saída. Sonic the Hedgehog 3aponta uma solução. Mais do que isso, mostra o quanto Carrey é um comediante genial.


Herdeiro do “humor físico” de Jerry Lewis (1926-2017), com caretas que desafiam as leis da física, ele despontou para o estrelato com Ace Ventura (1994) e reinou soberano sobre a década de 1990, com direito a uma obra-prima, Truman Show (1998), que antecipou o culto ao reality show. Fez parceria com realizadores autorais (Milos Forman, Michel Gondry) e passou por uma crise existencial e nervosa diante da demanda hollywoodiana. Saiu dela com a ironia que lhe é peculiar, apoiado numa incursão lívida pela fantasia de Sonic.  O notável arsenal de gestos (e de gags) com que Carrey desafia o mau humor amplia-se agora no terceiro tomo das peripécias do bicho azul. Ele interpreta Ivo e o desaparecido avô do inventor, o Professor Gerald Robotnik. A sequência em que vovô e netinho criam laços sentimentais, com direito a vestes de Papai Noel, é impagável.

No enredo escrito por Pat Casey, Josh Miller e John Whittington (sempre de olho em tiradas cómicas), Ivo precisa emprestar o seu intelecto ao seu mais odiado inimigo, Sonic, quando o herói (interpretado por Ben Schwartz) e os seus parceiros (Knuckles e Tails) têm de debelar uma nova ameaça: a criatura chamada Shadow. Trata-se de um ouriço de poderes imparáveis, que ameaça o balanço da Terra. Fowler confiou a voz de tal ferrabrás a Keanu Reeves.

Nessa aproximação a Sonic, Ivo descobre que Gerald está vivo e se alia a ele. Os dois Robotniks, combinados, podem facilitar a luta contra Shadow, mas existem segundas intenções na vilania… sempre existem. Apoiado numa direção de arte dionisíaca, Fowler cria um espetáculo visualmente vívido e conta com o talento de Tika Sumpter no papel da mãe adotiva de Sonic.

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Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
sonic-3-jim-carrey-na-velocidade-da-luz Ídolo eletrônico de gerações que cresceram ou adolesceram com joysticks, o ouriço Sonic foi criado no Japão em 1990, por Naoto Ohshima e Yuji Naka, para a desenvolvedora de diversões digitais Sega. Não tardou a transformar-se num signo de cinemática, ou seja, da expressão...