Num tempo pré-Pixar, ali pelo final da década de 1980, quando a animação mais popular ainda era a de desenhos 2D, a Disney procurou reatar relações com as plateias de cinema, após uma fase de desdém do público ao seu repertório cinematográfico. Para isso, resolveu apostar em narrativas de mais arrojo na direção de arte, com elencos (de voz) famosos e músicas com partituras e arranjos de requinte. Acertou com “A Pequena Sereia” (1989), ainda mais com “Aladdin” (1992), transbordando todos os limites da palavra “acerto” (na época) com “O Rei Leão” (1994). O projeto de Rob Minkoff e Roger Allers, orçado em 45 milhões de dólares, faturou 981 milhões (cifra astronómica para os anos 1990) e ganhou dois Oscars, dados à banda-sonora de Hans Zimmer e à canção “Can You Feel The Love Tonight”, de Tim Rice e Elton Jones. Tais feitos redefiniram a relevância do estúdio do Mickey Mouse no game of thrones da indústria audiovisual, numa disputa entre megacorporações (sobretudo a Universal e a Paramount) pela audiência na viragem do milénio. No ano seguinte, veio “Toy Story” que fincou os alicerces da Disneylândia na cultura digital, de onde ela não saiu, hábil o suficiente na adaptação para as mudanças tecnológicas que viriam a seguir, inclusive a cultura do streaming, na qual adentrou com o seu Disney +. Simba, o monarca felino de rugido forte, esteve sempre com ela nesse périplo, vitaminado pela sua transposição para a Broadway, em forma de musical. Cerca de 25 anos depois do lançamento da personagem, ele regressou aos ecrãs numa versão animada mais realista, sob a realização do ator e cineasta Jon Favreau, que arrecadou também fortunas (1,6 mil milhões de dólares). É dessa versão de 2019 que (se) deriva o empolgante “Mufasa”, um tributo a uma dramaturgia com animais que fez muito sucesso (sobretudo em telefilmes) entre os anos 1960 e 90.
Não existe nada (nadinha) de inovador ou de surpreendente no quesito dramatúrgico na trama de “Mufasa”, a começar pelo protocolar repertório de canções de Lin-Manuel Miranda. Tudo o que se viu de filmes sobre animais em apuros, sobretudo em “The Incredible Journey” (1963) e “The Adventures of Chatran” (1986), está lá, na saga do pai de Simba. Apesar desse sabor a merenda requentada, a direção impecável de Barry Jenkins (do oscarizado “Moonlight”) garante o colorido necessário ao espetáculo que a Disney procurava fazer a partir da rica fauna do seu “The Lion King”. A condução das sequências de luta, correrias, combates e batalhas pela sobrevivência em correntezas é de causar inveja a qualquer filme de ação de veia épica. A montagem, assinada por Joi McMillon (parceira criativa habitual de Jenkins), não dá margem a adormecimentos, sempre carregada de adrenalina. Há que se destacar ainda as tiradas de Zazu, pássaro cheio das neuroses interpretado por Preston Nyman. Há tiradas hilárias vindas dele.
Filmado a um custo estimado em 200 milhões de dólares, o roteiro de Jeff Nathanson segue uma linha de “era uma vez…”, ou seja, o que vemos é um causo narrado pelo sábio símio Rafiki (Ragiso Ledika) à filha de Simba e da Nala, a filhote Kiara (Blue Ivy Carter, cuja mãe é Beyoncé e o pai, Jay-Z), conforme os seus genitores se afastam para uma missão do qual a menina nada sabe. Assustada com a natureza à sua volta e a ausência parental, ela fica aos cuidados do javali Timão (Billy Eichner) e do javali Pumbaa (Seth Rogen), mas não se aquieta com as peripécias atrapalhadas deles. Só o dom de Rafiki para o storytelling a aquieta, numa imersão nos feitos que fizeram do avô dela, Mufasa, o senhor das savanas. Ao lado dele estava o irmão adotivo Taka, que será pivô de múltiplas viragens.
Esse once upon a time… não segue por veredas fabulares no ato de contar burilado por Rafiki, que opta por trilhas realistas, factuais, filtradas pela sua admiração pela coragem de Mufasa, da infância à adolescência, quando testemunha a transformação de Taka. Essa narração engloba a mirada (convencional) da Disney sobre o maniqueísmo, ao falar de traição e perdão, mas evita os meandros psicológicos de reflexão sobre os traumas, algo tão comum aos filmes da Pixar, vide “Inside Out 2”, o maior fenómeno de bilheteiras de 2024, com 1,6 mil milhões de dólares de receita. Jenkins choca, muitas vezes, com alusões ao “Black Panther” (2018), de Ryan Coogler, na sua forma de (re)trabalhar mitologias africanas, sobretudo na questão da fraternidade fraturada e de embates em cavernas. Ainda assim, consegue uma abordagem sólida do heroísmo (ainda que bem convencional), que não aflora uma assinatura autoral, mas se impõe pela destreza narrativa. Aaron Pierre compõe (vocalmente) a figura de Mufasa com engenho, um trabalho que deixa as vulnerabilidades do protagonista desabrocharem no timbre certo.



















