Os desejos sexuais ocultos e a homossexualidade numa comunidade ultraortodoxa de Jerusalém são o foco do mais recente trabalho de Nir Bergman, cujos créditos incluem os filmes “Broken Wings” e “Here We Are”, além da série original israelita “BeTipul”, que mais tarde foi transformada em “In Treatment” da HBO. 

Tolerância e aceitação são temas comuns no seu trabalho cinematográfico, mas aqui ganham a força do argumento de Mindi Ehrlich que, baseando a história nas suas próprias experiências na comunidade hassídica em Jerusalém, traz até nós a história de Lazer (Uri Blufarb) e Bati (Nur Fibak), um casal com três filhos. Sem que nada o previsse, Bati recebe um dia na caixa do correio imagens do seu marido em intimidades com outro homem, deixando no ar a hipótese dele ser homossexual. Inicialmente, o homem desculpa-se e fala em imagens alteradas por Photoshop, mas quando ele é espancado por três homens da sua própria comunidade, que invadem a casa do casal, não é possível continuar a prolongar a mentira. As fotos são reais e Lazer está a ser vítima de chantagem.

Numa comunidade onde o sexo é tabu, o filme ganha duas rotas de atenção por parte do cineasta. Por um lado, e apesar de iniciar um “tratamento” contra os impulsos sexuais junto a um rabi, Lazer parece não ter força para contrariar o destino; por outro, Bati sente que possa residir nela, e na sua inexperiência total no reino da sensualidade, a razão da incapacidade de “excitar” o marido. A questão do desejo é assim tratada via as duas personagens, enquanto paralelamente a família de ambos e a comunidade local vai-se envolvendo no tema e “tenta ajudar” a resolver o impasse. E enquanto Lazer reprime os seus desejos, Bati descobre os seus, ou antes, liberta-os, muito impulsionada por uma revista de softcore que encontra escondida na casa de banho de sua casa. Há particularmente uma “história” e as imagens eróticas que a acompanham, a de uma dançarina de striptease de cabelo cor de rosa (daí o título do filme), que fascina a mulher, a qual inicia, numa tentativa de ajudar o casamento, um processo de transformação sensual que se revela igualmente um processo de autodescoberta. “Até podes ir buscar um pouco da Lilith*”, diz uma conselheira de Bati no seu processo de sensualização, aconselhando-a a comprar lingerie sexy e, até, apimentar/sexualizar mais a interação com o marido.

Apesar de Nir Bergman filmar em diversos espaços de Jerusalém, incluindo o Muro das Lamentações, onde Bati recorre por 40 dias como método religioso sincronizado com as ações do marido junto de um rabi para que Deus retire do esposo a suas ideias pecaminosas, “Pink Lady” é essencialmente um filme encerrado em espaços fechados, diminuindo ou restringindo o mundo do casal a um bairro ou uma casa da comunidade hassídica. Nisto, esse encerramento deixa transparecer um sistema claustrofóbico de decisões limitadas, onde a culpa (ou razão) do que acontece é entregue exclusivamente às decisões pessoais (a força ou não que temos na luta contra o pecado) e não à natureza das coisas. 

Movendo-se principalmente na desconstrução das suas personagens, tendo Bati como centro e alvo de permanente acompanhamento da câmara, Nir Bergman acaba por entregar ao espectador um detalhado estudo pessoal que, inevitavelmente, tendo em conta a comunidade em que se insere, acaba por ser revelador de um coletivo, revelando inúmeras pressões e limitações da individualidade, não apenas para quem tem os ditos comportamentos desviantes fortemente reprimidos, mas também para quem está do outro lado (Bati) e sofre com a inevitável explosão dos desejos reprimidos do parceiro.

E nisso, sem nunca brilhar, o cineasta faz um filme relevante e iluminador, onde a atuação de Nur Fibak, ora na sua força de contenção, ora na ignição da explosão e tomada da decisão, se revela fulcral.


* Lilith é uma figura da mitologia judaica comumente retratada como a primeira esposa de Adão, que se recusou a ser submissa e abandonou o Jardim do Éden.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
pink-lady-repressao-e-aceitacao-numa-comunidade-ultraortodoxa-de-jerusalemMovendo-se principalmente na desconstrução das suas personagens, Nir Bergman acaba por entregar ao espectador um detalhado estudo pessoal que, inevitavelmente, tendo em conta a comunidade em que se insere, acaba por ser revelador de um coletivo