“Rei” da comédia ligeira como ator (“Mãe Fora, Dia Santo em Casa… Outra Vez!” e “Ninho Vazio, Casamento por Um Fio“) e também como realizador (Assim Não Vais Longe; Rumba La vie), Franck Dubosc tornou-se, de certa maneira, uma figura previsível na 7ª arte, a qual, ora sabemos que vai ter de lidar com uma série de miúdos porque a mãe ficou ocupada, ou então porque está em crise no seu matrimónio.
Talvez por isso mesmo, para pontapear os estereótipos e o expetável, o ator e realizador tenha optado por fazer uma “limpeza” radical do estilo de filmes que atua e/ou assina, tal qual uma Selena Gomez a tentar fazer esquecer os tempos Disney com “Spring Breakers” e“A Rainy Day in New York”.
“Un ours dans le Jura” (Como Matar ou Ganhar), um exercício que deriva (ou homenageia) (d)o cinema dos irmãos Coen, foi a forma com que Franck Dubosc decidiu variar, apresentando um exercício de humor negro que mistura migrantes, mulas de drogas, traficantes, malas de dinheiro e um grande número de situações mirabolantes e mortes escabrosas numa pequena localidade francesa, para lá do sol posto.
Na verdade, essa localidade na região de Jura, França, não chega aos 1000 habitantes, mas vê chegar um urso que desencadeia uma série de mortes entre um grupo de bandidos, os quais deixam à mercê do casal Dubosc e Laura Calamy, uma mala cheia de dinheiro que eles preferem guardar. Para estes vendedores de pinheiros de natal, com um casamento à beira da rotina e do afastamento físico (afinal Dubosc ainda se prende neste tema), 2 milhões de euros vêm mesmo a calhar. Por isso, quando a personagem de Dubosc, inadvertidamente, ao desviar-se de um urso na estrada, choca contra uma viatura parada, o caos está instalado. Só aí, há dois mortos que o casal vai ter de esconder, não apenas da polícia, mas igualmente das hierarquias mais elevadas do gangue criminoso.
Extremamente derivativo, no típico exercício das pessoas normais que, confrontadas com uma mala de dinheiro, vão acomulando crimes para esconder as pegadas que podem levar as autoridades e os criminosos no seu encalço, “Un ours dans le Jura” tem apenas na figura do chefe da polícia encarregue da investigação, o inevitável Benoît Poelvoorde (Au Poste), o grande responsável pelo interesse que o filme gera no espectador, particularmente quando este agente da lei tropeça na vida secreta da sua filha e vai ter de lidar com um assassino contratado denominado de “Iroquois”.
Quanto ao casal Dubosc e Calamy, os dois conseguem ter a química suficiente para criar trapalhadas atrás de trapalhadas no meio da ocultação dos crimes que vão cometendo, mas nunca conseguem elevar o filme a algo mais que um primo esquisito do cinema dos Coen, um “Fargo” com pitada de “Ozark” em França, onde tudo é tão forçosamente rocambolesco e, estranhamente previsível, que o espectador a única coisa que pode louvar é a mudança de direção do cineasta e o cinismo que ele incute nele, como o facto do filme passar uma mensagem de integração e aceitação dos filhos com dificuldades intelectuais, mas ser completamente amoral na ideia no complô generalizado para guardar um pouco de dinheiro.




















