Numa conversa com a realizadora Samira Makhmalbaf, já lá vai uma década, a uma questão sobre o escrever e filmar no seu pais, ela afirmou que estava a obrigada a usar a criatividade em cada linha do guião para escapar à mesa da censura. Há quase 100 anos, bem longe da Pérsia, nomeadamente em Hollywood (EUA), os criadores de cinema tiveram que lidar com o Código Hays (1930-1960), que proibia quaisquer referências explícitas ou tentativas de justificar o adultério e sexo ilícito, ou seja, fora do casamento. Foi então que filmes como “It Happened One Night” (1934), “Theodora Goes Wild” (1936) e “The Awful Truth” (1937) criaram um subgénero dentro da comédia, em que um casal separava-se, divertiam-se uns tempos fora da relação, e depois reuniam-se novamente. “Nouveau Départ” (Ninho Vazio, Casamento por um Fio), assinado 90 anos em França, depois dessa “moda” escapatória à censura, entra neste espectro, ainda que longe de qualquer escapatória à máquina da censura.

O casal em questão no filme de Philippe Lefebvre, Alain (Franck Dubosc) e Diane (Karin Viard), está unido há 30 anos. Quando o último filho sai de casa, Diane – já a entrar na menopausa, mas negando as evidências biológicas – começa a questionar tudo, inclusive o seu casamento. Eles separam-se e, com várias tropelias, jogos e acidentes, começam a conhecer novas pessoas.

Falando no voltar à atividade, na arte conhecer pessoas nos anos pós#meetoo, na menopausa e na forma como a vida pessoal afeta a profissional, Lefebvre segue sempre, mesmo com novas temáticas, numa veia de génese clássica, com a comédia à francesa a esmagar qualquer verdadeira reflexão sobre o que está a acontecer. E no que concerne a essa comédia, Dubosc (que se tem destacado nos últimos tempos em comédias com muitos filhos traquinas à mistura e uma esposa ausente) e Viard (aparentemente a entrar na sua fase Sandrine Kiberlain dos “ninhos vazios“) são exímios na produção de risos e química amorosa, mas escravos de um guião que efetivamente não quer muito mais que o espectador passe 1h30 de forma bem escapista.

E “Nouveau Départ” acaba por ser isso, um escape de entretenimento com pouco a acrescentar. E isso sente-se particularmente no último terço, quando o filme se entrega ao facilitismo para se livrar daqueles que se juntaram a cada peça do casal quando estes decidiram procurar uma lufada de ar fresco nas suas vidas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
nouveau-depart-franck-dubosc-e-karin-viard-a-procura-de-uma-lufada-de-ar-frescoFrank Dubosc e Karin Viard são exímios na produção de risos e química amorosa, mas escravos de um guião que efetivamente não quer muito mais que o espectador passe 1h30 de forma bem escapista.