Com a mesma boca que cantava o hedonismo ao recitar “cada qual tem um prazer que o arrasta”, Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) conclamava o povo de Roma a pensar o futuro a partir de um alerta: “a única salvação para os vencidos é não esperarem nenhuma salvação”. O mundo latino que gerou a sua poesia não teve sagacidade de ouvir o poeta e minguou do comando da equipa da Terra para os anais da derrota, conforme Cristo ascendeu, não ao Céu, mas ao centro do discurso vigente. Na passagem do politeísmo (de Dionísio e etc.) para o monoteísmo do Deus católico, e o seu profeta, Jesus, o reinado dos Césares, numa aristocracia de líderes como Pilatos, virou poeira. “Gladiador II” é uma triagem do que principiou essa derrocada.
Carrega em si a tónica do espetáculo – numa engenharia narrativa pop invejável – e decanta, cena a cena, uma verve ensaística sociológica que se debruça sobre as estratégias políticas – as mais corruptas. Faz da personagem Macrinus (vivido por Denzel Washington em atuação colossal) o eixo para a análise crítica do seu realizador, sir Ridley Scott, sobre os meandros de um governo autocrático. Fala de ambições de forma trágica, e gera catarses.
Dividido entre a publicidade e o cinema desde 1965, quando filmou a curta “Boy and Bicycle”, com migração para o formato de longa-metragem com “The Duelists” (Melhor Filme de Estreia de Cannes em 1977), Ridley é sinónimo de eficiência há quase cinco décadas, mas nem sempre a sua obra é garantia de poesia. Fez uma obra-prima ao estudar a barbárie (“Black Rain”, 1989) e formou um culto com “Alien” (1979), (mais ainda com) “Blade Runner” (1982) e “Thelma & Louise” (1991), embora tenha errado muito (“Hannibal”, “Black Hawk Down”). A sequela de “Gladiator” (2000), contudo, é eficaz e é poética. Sabe unir a suntuosidade da superprodução (custou cerca de 250 milhões de dólares) à ousadia do ensaio sociológico. Há um herói à moda clássica, Lucius (papel que amadurece, muito, o Paul Mescal de “Aftersun”), e ostenta vilões em diferentes estágios, mas joga com o maniqueísmo sem previsibilidade. A figura central do argumento de David Scarpa é a cidade de Roma, e a lógica imperial que lhe dá pompa. Uma pompa prestes a ser arruinada.
Catártico em (exuberantes) sequências de batalhas, esmagador no seu ensaio de desmitificação da onipotência, “Gladiador II” segue uma dinâmica filosófica similar à que Ridley empregou em “Napoleão” (2023). Em ambos, ele cartografa culturas expansionistas que expandem fronteiras com a invasão de territórios alheios, mas tropeçam na alienação dos seus árbitros políticos em relação a forças de resistência e a conspirações internas. Esse mote torna-se explícito no guião de Scarpa numa frase de Lucius: “Roma infecta o que toca”. O principal sintoma dessa infeção é Macrinus (Denzel).
Ele corresponde, no ethos da Idade Antiga, ao que Don King (empresário de boxe, famoso por armar as batalhas de Mike Tyson) representou para o século XX. É um promoter de lutas, que faz do Coliseu um ringue. A sua fortuna é garantida pela sua perícia em escolher guerreiros capazes de aplacar o sadismo dos imperadores gémeos Caracalla e Tegula (encarnados por Fred Hechinger e Rory McCann com a justa e assustadora vileza). Quando Lucius tomba durante um combate marítimo e é escravizado, Macrinus vê nele um gladiador nato. Além da esgrima infalível, o rapaz (que esconde o seu DNA nobre, num enredo melodramático paralelo) deseja se engalfinhar com o general Acacius (Pedro Pascal), atual liderança bélica romana responsável pela morte da sua esposa, em alto mar.

A sua fúria faz jus à de Maximus (soldado que valeu a Russell Crowe um Oscar, no primeiro “Gladiador”), encarado como uma lenda pelos súditos de Caracalla e Tegula. Esse anseio, somado à erudição que o jovem tem, faz dele um trunfo no tabuleiro de xadrez que se forma nas disputas pelo controlo governamental de Roma. Macrinus quer ser “O” controlador. Age como uma ave de rapina para isso. É um Donald Trump de toga romana: usa o entretenimento para alimentar o ódio de uma civilização que se entorpece com a violência. Entorpecida, a massa apoia, qual gado no pasto.
Calçado numa direção de arte capaz de filtrar excessos (e ainda assim permanecer grandiosa), Ridley narra as intrigas geopolíticas de Macrimus, sem descuidar do revanchismo de Maximus, num diálogo com duas tradições do audiovisual. Aproxima-se do formato narrativo esculpido pela (tele)dramaturgia de capa & espada nas séries “Game of Thrones” e “Roma” e conversa (de modo elegante) com o clássico “Quo Vadis” (1951), celebrizado pelo Nero flamboyant de Peter Ustinov (1921-2004). Extrai o melhor de ambas as referências ao mesmo tempo em que recicla o filão sword-and-sandal, também chamado de peplum, subgénero da aventura (e do épico) explorado sobretudo em Itália, abordando as vicissitudes morais greco-romanas, com foco nos seus combatentes e deuses. O ator Steve Reeves (1926-2000) foi a inspiração dessa linhagem, que rendeu joias como “Rômulo & Remo” (1961) e “Maciste All’Inferno” (1962). Nos EUA, “Spartacus” (1960), de Stanley Kubrick (1928-1999), baseado no romance de Howard Fast (1914-2003), virou o cânone dessa linha de fitas centradas em guerreiros romanos ou divindades gregas. Foi Ridley quem trouxe essa representação da História (há muito desgastada) de volta, no “Gladiador” original, que é honrado devidamente com a continuação. Nela, a fotografia dionisíaca de John Mathieson assegura carnalidade (realismo) ao mar de CGI em que Ridley mergulha de cabeça.


















