Uma crise pessoal converge – alimenta-se e é alimentada – por uma crise nacional no novo filme do cineasta brasileiro Camilo Cavalcante, que atualmente se encontra em Portugal a finalizar o doutoramento  na Universidade da Beira Interior, na Covilhã.

Exibido na Mostra de São Paulo, no centro desta metonímia está Flávio, um ator em crise conjugal, que volta para a casa da mãe. Preparando a peça “A Poética do Devaneio”, de Gaston Bachelard, onde os devaneios poéticos do autor-modelo instigam o leitor-modelo (espectador), Flávio não encontra palcos para atuar, representando a obra pelas ruas da cidade do Recife num período, 2016, em que começa todo o processo (surreal) de impeachment a Dilma Rousseff que vai levar, anos depois, Jair Bolsonaro ao poder.

O individual e coletivo confluem numa mistura experimentalista semelhante à de um pesadelo do qual Flávio, e muitos brasileiros, não conseguem se libertar.

Executado com escassos recursos, mas bastante criatividade, “O Palhaço de Cara Limpa” encontra nas suas limitações a base para explorar os códigos do cinema, misturando ficção com relatos documentais, em particular imagens de arquivo da televisão e das ruas, não se afastando nunca de uma forma particular de cinema militante. A evolução da própria personagem de Flávio, construída e vestida por Flávio Renovatto com maestria, é uma jornada à loucura uma descida vertiginosa ao inferno psicológico de alguém envolvido numa profunda tristeza que o faz divagar poeticamente em busca de um escape, mas acaba por se deixar enlouquecer, como o seu país, por todos os constrangimentos e barreiras que vai encontrando.

Está na montagem, que certamente o português Edgar Pêra caracterizaria como “pesadélica”, que reside o sabor de um filme que escapa a convenções cinematográficas do storytelling tradicional de discurso direto, embora nunca desista de uma forma linear e cronológica contar tudo o que se vive, ora na vida de Flávio, ora na vida do Brasil.

No final, esta ida para o “degredo” de um homem e de um país abalado por um choque democrático e identitário convence e mostra um cineasta que tem várias histórias para contar de um jeito muito particular, como se viu nos seus filmes anteriores, em particular “A História da Eternidade“, “O Beco” e “King Kong en Asunción“. Merece uma olhadela.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
o-palhaco-de-cara-limpa-desvaneios-poeticos-num-pais-em-ebulicaoExecutado com escassos recursos, mas bastante criatividade, “O Palhaço de Cara Limpa” encontra nas suas limitações a base para explorar os códigos do cinema, misturando ficção com relatos documentais