Enquanto morar for um privilégio, ocupar é um dever”. Assim o diz uma das muitas figuras que povoam o documentário “Intervenção” de Gustavo Ribeiro, realizador que levou até à Mostra de São Paulo a luta de um grupo de moradores de comunidades que habitam o que alguns chamam de “favela de luxo”, enclausurados com edifícios de condomínios bem mais ricos que não os querem por perto. 

Documentário que faz uma boa parelha com outro filme do cineasta também exibido na Mostra, “Ocupa SP”, “Intervenção” multiplica-se em olhares humanos e urbanos, não fosse a existência de um plano de urbanização, que irá relocalizar os atuais bairros degradados para localizações ainda mais próximas dos condomínios de luxo, lançar a questão clássica da luta de classes. É que mesmo que a maioria dos que habitam nos prédios de luxo tenham o cinismo de dizer que é importante acabar com a pobreza e promover uma verdadeira integração social, quando o processo chega demasiado perto da sua área territorial, “ao seu quintal”, e ameaça a sua noção de conforto, então o processo é para barrar. É assim no Brasil, é assim em Portugal, é assim em vários pontos do mundo. A ideia chave normalizada, mas repleta de egotismo, é: vamos acabar com a pobreza, mas não à custa do meu conforto. Isto não serve apenas no combate à pobreza e promoção da integração. Nas questões climáticas e até energéticas, sucede o mesmo. ‘É preciso acabar com tantos carros na estrada, mas não com o meu. Podemos ter uma nova fonte de energia, mas não junto das minhas terras’. 

Com um olhar extremamente acutilante e detalhado sob a paisagem urbana, quer quando circula a pé pelas ruas e entra nas lojas e casas de pessoas, quer quando as olha de cima, qual ortofotomapa do território, “Intervenção” tem legítimas pretensões humanistas quando parte para a conversa com quem vive no bairro degradado e tenta entender os seus desejos e receios. Tenta fazer o mesmo quando viaja para terrenos mais privilegiados, mas muito poucas vozes – além das caras que aparecem no zoom nas reuniões durante a pandemia – tentam contrariar a narrativa que no centro de tudo está uma luta de classes com tanto de clássico como de trágico. No fundo, aquelas pessoas (o “eles” em oposição ao “nós) servem para entrar na minha casa e fazer a faxina, mas viver perto é que não.

Existe ainda, além do olhar humano e urbano, uma outra mirada: a da participação cidadã como comunidade, seguindo o realizador, cronologicamente, as discussões públicas sobre o projeto, as vitórias e derrotas, mas sempre com a ameaça real e legal de levar tudo para tribunal. E nesse processo, Gustavo mostra maestria, fazendo um desenho de toda a situação, recolhendo testemunhos, reunindo documentação, e criando (ou antes, montando) um arco narrativo onde não falta um desenlace em clímax.

Nisto, “Intervenção” revela ser um objeto essencial não apenas para arquitetos, urbanistas, decisores políticos e população em geral. É que por trás de todos esses substantivos estão seres humanos reais que a única coisa que pretendem é deixaram a sua invisibilidade social e política. E se não estão preparados para perder um pouco o seu conforto e efetivamente participar ativamente na integração e criar um mundo mais justo, então não digam que o pretendem. O mundo não precisa de caridade para fazer sentir bem quem a pratica, mas de um real assistencialismo para acabar definitivamente com as barreiras do “nós” e  do “eles”.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
intervencao-enquanto-morar-for-um-privilegio-ocupar-e-um-dever“Intervenção” revela ser um objeto essencial não apenas para arquitetos, urbanistas, decisores políticos e população em geral. É que por trás de todos esses substantivos estão seres humanos reais que a única coisa que pretendem é deixaram a sua invisibilidade social e política.