Desde 2012, quando Ted, de Seth MacFarlane, faturou 549 milhões de dólares, Hollywood não emplaca mais fenómenos populares nas fronteiras da comédia, em parte pelo filão estar em penosa fase de reinvenção, sob o garrote da correção política, das patrulhas morais (disfarçadas de progressistas) e da ameaça de cancelamento. O ranço quase medieval que hoje assombra quem vive do riso alheio se desvela diante do engenho arqueológico de Saturday Night, o filme formalmente mais arrojado (e arriscado) do realizador canadiano Jason Reitman. Uma triste sensação de que nenhum dos génios consagrados pelo programa de TV “SNL” teria (sequer) chance de expressão diante da cortina de ferro da woke culture corrente encapa a longa-metragem de uma aura de melancolia – e de alarmismo. Esse espectro só não abafa a aceleração que o cineasta por trás de Juno (o seu processo de realização mais maduro) imprime a cada plano, ao fazer uma reconstituição histórica da noite de 11 de outubro de 1975, quando o programa humorístico estreou na NBC.

Lorne Michaels, o seu idealizador, é interpretado por um Gabriel LaBelle nas raias da pressão, num processo de atuação meticuloso. Coube a Lorne a tarefa de propor uma renovação dos modos de fazer piadas e criar abordagens irónicas da vida cotidiana que oxigenassem a programação de uma emissora sedenta por audiências. A baliza dessa sede é encarnada pelo executivo David Tebet (1913-2005), espécie de gerente de conteúdos construído com ares vampíricos por um inspirado Willem Dafoe. É tarefa de Tebet descartar a aposta de um criador jovem como Lorne num formato de sketches (segmentos jocosos curtos) para substituir a tradição da sitcom, com tramas mais longas. Cada aparição dele é uma tentativa de derrubar o projeto estético de um showrunner juvenil, cuja ambição era salvar a televisão dos códigos de representação dos anos 1950, inadequados às transformações trazidas pela contracultura.

Vivido por J.K. Simmons, Milton Berle é uma ponte com a tradição de um humor que o “SNL” tentou reinventar

Num formato similar ao de seu (brilhante) Thank You For Smoking(2005), porém, um tanto mais ágil, Reitman não se fecha em Lorne. Ele abre no argumento (escrito com Gil Kenan) afluentes para diferentes pessoas que foram fundamentais ao lançamento do Saturday Night Live em meados dos anos 1970. A sua primeira transmissão se dá no auge da Nova Hollywood, quando Elaine May (The Heartbreak Kid), Woody Allen (Bananas) e Neil Simon (The Sunshine Boys) enchiam as salas de exibição norte-americanas com formas mais modernas de se extrair gargalhadas, a se pautarem por crónicas de costumes. Lorne procura fazer o mesmo, só que calcado em comediantes que alargavam as fronteiras do escárnio. Alguns o faziam pelas raias da palavra, como Chevy Chase (vivido por Cory Michael Smith). Alguns faziam isso a partir de uma composição física enlouquecida, como John Belushi (interpretado por um hilário Matt Wood). No coração dessa trupe, brota outro artífice da troça, Dan Aykroyd, que Dylan O’Brian interpreta numa toada mais afetiva, explorando a inquietação sentimental do ator com a sua persona debochada. Todos esses astros redefiniram a narrativa humorística na cultura pop e alguns deles se perderam por comportamentos tão selvagens quanto o de seus papéis. É o que se vislumbra no procedimento (impecável) adotado por Michael Smith para representar Chase, a retratar os seus ataques de vaidade. Tais ataques destruíram a sua carreira nos anos 1990.

Nessa linha intempestiva, ninguém em cena é mais vaidoso do que Milton Berle (1908-2002), veterano convocado por Tebet para garantir ao “SNL”, numa imposição despótica, uma ponte com a tradição. Berle esbanja arrogância e sexismo em cena, ao mesmo tempo em que injeta contradições na trama graças ao esplendoroso desempenho de J.K. Simmons, ator que já faz parte da assinatura de Reitman. Simmons é um sol na longa-metragem, destilando controvérsia.

Este painel coral de época, que evoca o Robert Altman de The Player(1992), deve parte do seu arrojo à montagem eletrizante de Nathan Orloff e Shane Reid, que amplifica o olhar arqueológico de Reitman sobre os processos de realização das gravações televisivas em estúdio. A forma redentora como o seu enredo traça a curva heroica de Lorne, expõe preconceitos mercadológicos do passado e intolerâncias do presente, onde a graça passa por formas de censura variadas – e cruéis.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
saturday-night-fazer-piadas-e-correr-riscosEste painel coral de época, que evoca o Robert Altman de “The Player” (1992), deve parte do seu arrojo à montagem eletrizante de Nathan Orloff e Shane Reid, que amplifica o olhar arqueológico de Reitman sobre os processos de realização das gravações televisivas em estúdio