Apesar da faturação astronómica de Deadpool & Wolverine(gerado em boa parte pelo alívio cómico por ele proporcionado), a ruína absoluta de Joke: Folie à Deuxacendeu o sinal vermelho definitivo para que a indústria audiovisual perceba a extinção anunciada dos filmes com matriz nas BDs. É possível que o tão anunciado Superman”, de James Gunn, desmanche-se no ar antes da sua estreia, veja-se a quase extinção de um filão que, de 1998 até 2022, fez com que as contas de Hollywood permanecessem no azul. A derrocada deu-se por excesso, por um cansaço do público diante de algoritmos de resultado (supostamente) controlável, pela adesão ao politicamente correto (com reverência plena às patrulhas de cancelamento) e pelo uso indiscriminado do CGI, o que desumanizou ações corriqueiras. Existem franquias, contudo, que souberam se impor à margem dessas regras por não se levar a sério e por transitarem por uma margem mais próxima do chamado monster movie do que dos vigilantes uniformizados, o que é o caso de Venom.

Inteligentemente, o terceiro título, The Last Dance, carrega já no nome uma ideia de fim, de conclusão. Por sorte, o protagonista, o londrino Tom Hardy (um poço de carisma, dono de uma persona de galã torto, como um Marlon Brando fora do tempo) abraçou essa ideia de despedida e ajudou na conceção do argumento de modo a apostar numa linha afetiva de buddy film, de “filme de amizade”, de bromance. Doseou bem o coeficiente cómico, na condução do script com a sua coautora, Kelly Marcel, uma cineasta estreante que assina a realização, e aparece a toda a hora em cena com um ar crepuscular, de morte a crédito, de finitude a conta-gotas, o que confere à superprodução um tempero trágico saboroso, que não afeta as suas especiarias nerds.

Hardy já havia brilhado nesse campo da banda desenhada filmada como o terrorista Bane, em 2012, no tomo final da trilogia Batman, de Christopher Nolan, e assumiu compromisso com Avi Arad (produtor de Ghost Rider) de emprestar o seu perfil bad boy à onde de filmes (todos B) derivados de vilões e personagens adjacentes do Homem-Aranha, o que inclui iguarias (Morbius) e estranhezas (Madame Teia). A figura encarnada pelo inglês em The Last Dancedeu os seus primeiros passos (e pulos) nos comics na coleção de historietas chamada Guerras Secretas (de 1984), que hoje está em adaptação aos ecrãs pelos Irmãos Russo. Surgiu ali como um uniforme vivo, alienígena, definido como Simbionte. O primeiro a “vestir” esse ser de tecido orgânico (capaz de expandir a força e a destreza de quem o usa) foi Peter Parker, aka Spider-Man. Não demorou para que a “roupa” de inteligência própria demonstrasse sinais de má índole e atacasse o aranhiço. Quatro anos depois, em 1988, a dupla de artistas gráficos David Michelinie e Todd McFarlane viu naquele ET fluído um potencial vilão para o Aranha e ressuscitou-o, dando-lhe um nome (Venom), uma história pregressa e um novo “dono”: o repórter de caráter diminuto Eddie Brock.

Parker é um fotojornalistas que produz fotos de si mesmo, no seu traje de aracnídeo, para ter um soldo no fim do mês. Já Brock fabrica furos, inventa factos, cunha até fake news. Era a tradução plena da corrupção de caráter na América do fim da década de 1980 e início dos 1990, que via o jornalismo perder os seus ideais em prol da espetacularização. Com o passar dos anos, Brock foi humanizado e a sua veste interestelar humanizou-se. Nos anos 2000, ele transformou-se num anti-herói. Ganhou uma revista própria, onde combate as ameaças à Terra seguindo caminhos fora das normas de bom-rapaz da Marvel. Esse modo “incorreto” encontrou em Hardy uma encarnação precisa na sua transposição para as telas, que atraiu as plateias por evitar as leias do heroísmo clássico, numa investigação de uma premissa à la Dr. Jekyll e Mr. Hyde, na qual Brock tenta controlar uma criatura selvagem dentro de si. O primeiro filme arrecadou 856 milhões de dólares e o segundo recadou 506 milhões. A parte III, “The Last Dance”, consegue ser mais divertido – e mais eletrizante – que os antecessores.

Na equipa da narrativa, Kelly Marcel (prolífica argumentista) alcança uma mistura equilibrada de risos e adrenalina, sem jamais descambar para o clima de paródia de Deadpool. Ele nem cabe num arranjo dramatúrgico que aponta a toda a hora para um desfecho numa relação entre Brock e o seu “hóspede”. No enredo, o planeta natal de Venom, lar de outras/es/os simbiontes parecidos com ele (embora de outras cores), repeliu uma divindade chamada Knull (o papel do eterno Gollum Andy Serkis) para uma espécie de limbo prisional. O tal ser é um destruidor de mundos, como Thanos, mas sem as Joias do Infinito. Se esse deus caído puser as mãos num dispositivo que está encrustado na fisiologia de Brock, ele pode se salvar e destruir o Cosmos. Para se apoderar desse pertence, ele envia artrópodes gigantes (com direito a tentáculos, presas e baba) aos EUA, a fim de capturar Brock. Começa aí um jogo do gato e do rato que se estende do deserto até Las Vegas, com passagem pela folclórica Área 51, tão citada em The X-Files.

Existem núcleos de personagens satélites aleatórias (e supérfluas) ligadas a uma base militar de “controle de pragas” (no caso, de seres do espaço) liderada pelo oficial Strickland (Chiwetel Ejiofor, desperdiçado). Nesse grupo trabalham cientistas como a Dra. Payne (Juno Temple), outra secundária desnecessária. Mais sorte tem o núcleo hippie de fãs de OVNIs liderados por um inspirado Rhys Ifans, que viveu o bandido Lagarto na Marvel, em 2011.

Graças à montagem frenética de Mark Sanger, Venom: A Última Rodada explode na medida precisa de sinestesia. A edição demonstra galhardia tanto nas sequências violentas quanto nas situações melancólicas. Disfarça até a falta de criatividade na fotografia de Fabian Wagner. Para um produto que surgiu sem grandes expetativas, confiante só no ferramental cénico de Hardy, The Last Dance é um belo fecho.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
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