Nascido do “descontentamento” do realizador Rui Pires para com a democracia portuguesa, “O Palácio de Cidadãos” leva o espectador às “trincheiras” e “bastidores” da Assembleia da República nos anos de 2018 e 2019, uma época onde Chega, Livre e Iniciativa Liberal ainda não povoavam o espaço. 

Pegando numa série de temas abordados na AR naquele período, mas dando-nos a sensação que essa seleção de imagens (a montagem das imagens em bruto que recolheu) têm os olhos assentes profundamente no presente (a potencial Lei de Bases da Habitação é explorada em primeiro plano, com Helena Roseta em destaque), Rui Pires não se foca apenas no olhar dos parlamentares sobre a criação das leis (ou o chumbo das mesmas), mas igualmente nos cidadãos comuns que visitam o espaço e até mesmo outro trabalhadores (responsáveis pelo protocolo, mulheres da limpeza, etc) que nos mostram a “máquina” por trás da fábrica da democracia.

É bom dizer que o jovem realizador, que precisou de vários anos para convencer a sua produtora que o filme que tinha em mente não era “muito chato” tem sempre um olhar entre a ironia, a seriedade e aprendizagem de procedimentos sobre aquilo que mostra, construindo uma narrativa com múltiplas personagens que, como bem sabemos, raramente se entendem na plenitude. A máquina da burocracia é também analisada, fazendo-se uma incursão sentida para os sonhos de abril e da constituição de 1976 para mostrar como existiram (e existem) vários desvios, entropias e bloqueios que evitaram (ou adiaram) a sua concretização.

Sempre seguindo a via observacional e sem interferência da câmara, vemos muitos dos parlamentares atuais em cena, incluindo Pedro Nuno Santos, irritado e sarcástico com uma atitude do PSD para adiar a decisão da Lei de Bases da Habitação para outra legislatura, ou Sérgio Sousa Mendes, com dificuldades em organizar uma reunião devido à ausência de um ministro. E vemos um grupo de jovens a serem recebidos – com um high five –  no parlamento por Ferro Rodrigues, além  de um momento hilariante quando um conjunto de trabalhadoras do parlamento, depois de organizarem a mesa de jantar para uma receção protocolar, descobrem que um dos convidados afinal não vai, o que vai levar a um reboliços nas posições na mesa. E há também duas intervenções registadas que facilmente se tornam a melhor mensagem que Rui Pires poderia revelar: uma no dia 25 de abril, onde relembram os tempos da ditadura e as falhas da democracia atual; e outra, de uma jornalista, que fala abertamente sobre o racismo sistémico e estrutural. São dois discursos poderosos e que sublinham logo a primeira percepção que temos sobre o parlamento quando o vemos pela primeira vez neste documentário. Ele continua a ser demasiado masculino e branco nas posições de poder, e feminino e negro (vejam-se as funcionárias da limpeza) nas posições verticalmente isentas de qualquer poder de decisão.

No final, o que chega ao espectador é um documentário curioso e que também faz pensar o espectador: afinal, já entraram alguma vez na casa da democracia em Portugal? Quanto a Rui Pires, fica a questão: a concretização deste projeto mudou de alguma forma o seu descontentamento para com a democracia?

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
bem-vindos-ao-palacio-dos-cidadaosÉ bom dizer que o jovem realizador, que precisou de vários anos para convencer a sua produtora que o filme que tinha em mente não era “muito chato” tem sempre um olhar entre a ironia, a seriedade e aprendizagem de procedimentos sobre aquilo que mostra, construindo uma narrativa com múltiplas personagens (que nos acompanham até hoje)