Depois de ter dedicado uma larga atenção ao Comunismo e ao Bloco Soviético, através de uma trilogia composta por “Videograms of a Revolution”, “Out of Present” e “Autobiografia de Nicolae Ceausescu”, o romeno Andrei Ujica atravessa o Atlântico para falar da ida dos Beatles aos EUA em 1965, aproveitando no seu processo fílmico, que mistura imagens de arquivo, diários pessoais, animação e muita música, para falar do que estava a acontecer paralelamente nos EUA nesse período, capturando a atmosfera de uma nação com fortes sinais de revolta racial, que viria a gerar o grande movimento de direitos civis, mas fascinada com a Feira Mundial e com a chegada dos Beatles.
No centro de tudo está um aspirante a escritor, Geoffrey, uma figura que Ujica coloca em cena através de animação (desenho sobre imagem real) e que nos vai levando nesta aventura que começa inserida na mais louca Beatlemania, com milhares de adolescentes histéricas a gritarem em frente ao histórico Warwick Hotel, mas acaba por atravessar motins raciais (no bairro de Watts e áreas vizinhas de Los Angeles), menciona ao de leve a Guerra do Vietname, antes de voltar aos Beatles através de Judith, uma jovem que “ganha vida” através de filmes caseiros, filmados em Super 8, onde ela e as amigas seguem na rota para o concerto.
Baseando o seu Geoffrey no poeta e ensaísta nova-iorquino Geoffrey O’Brien, cujo pai Joe, um DJ (que ouvimos na rádio), lhe introduziu os Beatles, Ujica transforma tudo num conto de verão em que o fervilhar de uma nação onde prolifera a segregação mostra uma tensão política e social prestes a rebentar na cara de uma outra América, a branca, que parece entregue ao entretenimento e alienação com base na sua posição de privilégio.
O real e o ficcional fundem-se assim num trabalho híbrido que tanto nos leva para o humor como para a reflexão política, partindo-se da ideia generalizada de good times para, à distância de várias décadas, se observar com um olhar com tanto de critica como de nostalgia.





















