A Berlinale apostou consecutivamente em observações sobre a Guerra da Ucrânia a partir de cineastas norte-americanos e, depois do inenarrável “SuperPower”, de Sean Penn, um ensaio narcisista que falha consecutivamente como documentário, peça jornalística ou máquina de propaganda, eis que Abel Ferrara entra também no jogo, com uma aura de “autor” em seu torno. Nada é tão óbvio, nem a soberba se aproxima da de Penn, mas o cineasta norte-americano faz questão de aparecer diversas vezes no seu documentário (às vezes através das lentes de quem entrevista ou de espelhos nos locais das conversa) sem largar uma postura providencial, chegando a explicar numa entrevista local, também captada pelo seu documentário, a razão que o levou até ali. Ele fala em “instinto” e porque “sentia que tinha de estar ali”, mas o que salta até nós é o seu eu no “estar” e “criar”.
A verdade é que mais que um filme sobre a Ucrânia, que contribua com lucidez e pragmatismo (que só se sente nos testemunhos das vítimas da guerra), “Turn In The Wound”, agora exibido no Doclisboa, parece ser um filme sobre Ferrara (uma espécie de Anita Abel na Ucrânia), com o seu processo criativo fílmico a ter a atenção das câmaras, mesmo que nos microfones ouçamos histórias tenebrosas de uma guerra que muito poucos acreditavam iria efetivamente chegar. E tudo é intercalado com imagens de uma belíssima instalação audiovisual ao vivo apresentada por Patti Smith e o Soundwalk Collective no Centro Pompidou, em Paris, de outubro de 2022 a março de 2023, que chama à arena as palavras de Antonin Artaud, René Daumal e Arthur Rimbaud. Há ainda uma entrevista com o presidente Volodymyr Zelensky que causa impacto, especialmente quando ele fala das crianças ucranianas que têm de se tornar adultos pela guerra, e a tal conversa com o próprio Ferrara, que até começa com uma atitude agressiva do cineasta, num gesto também ele com um toque egotista.
A verdade é que apesar da força das palavras dos entrevistados, em particular de uma mulher que questiona do que vieram os russos a libertar, e da pujança da interpretação de Patti Smith darem por si dois filmes interessantes, a montagem com a benção de Ferrara tenta unir pontos que inevitavelmente ganham contornos antibelicistas, mas que se sentem chamados a cena num óbvio exercício de high moral ground cinematográfico que, mais que despertar para um conflito, aliena. Ou seja, o típico exercício para burguesia ocidental ver, aplaudir e sentir-se bem depois disso, ficando politicamente tudo na mesma. E nisso, “Turn In The Wound” também não é muito diferente do recente “Why War” de Amos Gitai.





















