Batizado em referência à sua arena narrativa, isto é, o cenário onde se passa, uma comuna na província de Trento, com área de 103 km² e cerca de 1.856 habitantes, Vermigliochega aos cinemas nacionais endossado pelo Grande Prémio do Júri de Veneza. Há muitas comédias (algumas dramáticas) no currículo desse aclamado ator, porém, mesmo as mais populares eram económicas nos diálogos, mais fiéis na gestualidade das suas estrelas e em subtextos que se compreendiam sem a necessidade de palavras. O que se passa em nove em cada dez longas-metragens fabricadas hoje em Itália vão na contramão da linha dramatúrgica que fez a glória daquela nação nos cinemas, a ponto de revelar os seus gigantes (Fellini, Visconti e, sobretudo, Antonioni), que entendiam o valor da quietude… e da subtileza. Talvez por isso… por resgatar essa “calmaria” de outrora, silenciando a aguda verborragia da filmografia italiana do presente, o Lido tenha coroado com um Leão de Prata a visita da realizadora Maura Delpero a um momento crítico da II Guerra, numa área alpina onde o conflito parecia distante, tangenciando os seus Habitantes de maneira quase indireta. Essa mesma coroação parece se fazer em terras paulistas, onde a película abarrotou a projeção na Cinemateca Brasileira e arrancou um aplauso avassalador durante os créditos. É um corpo cinematográfico estranho o que sai do país de Pasolini, próximo apenas de certos exercícios (não todos) de Alice Rohwacher (“Lazzaro Felice”), embora sem o seu lirismo.

No papel do professor Cesare, Tommaso Ragno, nos seus silêncios devastadores, regados a fumo de cigarros e balizados pela melodia baixinha de uma música clássica no gramofone, parece sintetizar todo o espírito de introspeção que rege “Vermiglio” mesmo nos seus momentos mas agoniantes. A sua atuação grandiosa, com o mínimo de ações, sempre implosivo, dá a medida de uma área rural que, em 1944, ouvia falar do conflito do Eixo contra os Aliados por carta. Por epístolas entregues com muito atraso. O gramofone é o seu analgésico diante da pressão de ser um guardião do saber num território de iletrados, onde os poucos a saírem Europa adentro são soldados… e desertores. Cesare dá aulas a crianças (inclusive às filhas e filhos) e a adultos, que se mantêm aferrados a um dialeto que ele tenta eliminar: “Falem em italiano”, diz. No lar, ele é implacável com o varão, que cresceu, bebe vinho aos litros, mas não se debruça sobre os trabalhos de casa.

Da forma como pode, em meio a um contexto de pobreza extrema, Cesare tenta manter a ordem, alimentando a sua prole e esposa amada com o leite do gado, servido em doses controladas, com uma concha para cada boca. Ele sabe que Itália vai ruir, mas prefere não falar disso… e Maura compreende-o, numa direção claustrofóbica, meticulosa, na qual se deleita com o movimento das charretes velhas e com o cruzamento de um barco pelas águas. Os planos-sequência são longos, mas dinâmicos, cheio de eventos, sem a necessidade de uma banda-sonora que os ressalte. O desenho de som que recebe de Hervé Guyader e de Dana Farzanehpour descarta polifonias, subjuga a palavra. Estas aparecem, uma ou outra vez, e têm o seu lugar. Entretanto, do mesmo modo como acontece com as supracitadas cartas, chegam sempre com atraso. Os olhares as atropelam e dizem tudo. Até porque a fotografia de planos médios e sazonais closes de Mikhail Krichman é muito atenta aos olhos de cada figura em cena.

Tudo naquele mundo parece mudar depois de um combatente fugido das trincheiras aparece por lá e, sem falar nada dos seus dias de batalhas, arrebata o coração de uma das filhas de Cesare, num casamento do qual ele faz gosto. Não tarda, porém, para que as verdades soterradas saiam do solo e cobrem um preço caro do veterano educador e da sua cria.

Realizadora de Nadea e Sveta (2012) e Maternal(2019), Maura não tem motivos para se apiedar de Cesare, não por culpa-lo ou condená-lo, mas por parecer mais interessada em entender o quanto as diferentes estações de um ano de crise, 1944, causam na (suposta) harmonia de uma localidade que se supõe resguardada dos bombardeios e dos tiros. As mulheres são especialmente atentas ao que se passa e alimentam a chama da sororidade. A educação que cada um ali vai ter é a educação pela pedra… a educação da vida (como ela é), implacável com mínimas desatenções. É difícil não pensar em A Árvore dos Tamancos(Palma de Ouro de 1978), de Ermanno Olmi (1931-2018), outro artesão de uma Itália de outrora, onde falar não era um ato incontinente. Maura parece ser sua herdeira.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
vermiglio-geografia-da-quietude É difícil não pensar em “A Árvore dos Tamancos” (Palma de Ouro de 1978), de Ermanno Olmi (1931-2018), outro artesão de uma Itália de outrora, onde falar não era um ato incontinente. Maura parece ser sua herdeira.