Sun Tzu, no seu seminal “A Arte da Guerra”, dizia: ”diante de uma larga frente de batalha, procure o ponto mais fraco e, ali, ataque com a sua maior força”. Este título, que tanto ainda se fala hoje no que concerne a estratégia política e militar, além de liderança do uno para o todo, pouco (ou nada) fala do uno depois do todo (e do readaptar à vida civil de alguém que esteve na frente da guerra), num sentido em que as mazelas, sejam físicas ou psicológicas, permanecem depois de se sair da primeira linha de combate.

Dad’s Lullaby”, da ucraniana radicada em Portugal Lesia Diak, vem se juntar a um conjunto de obras que acompanham a guerra entre Ucrânia e Rússia, mas em vez de se focar no próprio conflito, na sua brutalidade e no impacto num território geográfico (e na suas populações civis), além das decisões políticas e militares, como o fizerem “20 Dias em Mariupol”, “Quando a primavera chegou a Bucha”,  “Invasion” de Sergei Loznitsa, e “Intercepted” de Oksana Karpovych, este filme presente no Doclisboa foca-se mais no como qualquer conflito interfere nas relações humanas, estudando-se, maioritariamente num registo observacional cru, mas meticulosamente pensado na mesa de montagem, o caso de um homem, Serhiye, no seu regresso a casa depois de três anos na frente de batalha de uma guerra ainda a decorrer. 

Já sem os 70 homens com quem chegou a lidar nas trincheiras, Serhiy é alguém que depois de sair da frente de combate continua numa guerra, não apenas a geopolítica e militar coletiva, mas interna. A certo momento, este homem diz que na guerra nunca se está sozinho, como explicando que o seu estado de Stress Pós Traumático pode não se manifestar de uma forma agressiva ou extremamente latente, mas apenas no desejo de isolamento e não ter ninguém dependente em seu torno, coisa que com a vida familiar que tem, onde se inclui a esposa, Nadia, e os três filhos, Nikita, Artem e Sasha, é uma missão que parece ser impossível.

A cineasta quebra o modelo de observação através de interações diretas com este homem, nas quais ele não fala apenas das suas inquietudes existenciais e emocionais, mas da própria natureza documental em que está a ser registado, referindo que não podemos construir vidas a partir de fragmentos. Desde a comida que não lhe sabe a nada, até à ausência de sonhos, não esquecendo uma desesperada procura de paz (concreta da guerra, mas principalmente espiritual), Lesia Diak vai capturando, acima de tudo, inquietações de um indivíduo fracionado no propósito coletivo, mas principalmente no seu contexto particular. E quando a perspetiva de um novo membro se juntar à família torna-se uma realidade, na figura de uma nova filha, a angústia de Serhiy sofre um incremento e as fraturas emocionais ganham maior densidade. Se adicionarmos a isto o facto do conflito ainda estar em andamento, percebemos que como Serhiy temos múltiplas famílias de uma nação num limbo. E um limbo não apenas geopolítico, mas massivamente existencial, sendo particularmente duro explicar, com clarividência e lucidez, aos mais novos, o universo em que foram inseridos e no qual têm de viver.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
dads-lullaby-fragmentos-de-uma-guerra-ainda-a-decorrerO filme foca-se mais no como qualquer conflito interfere nas relações humanas, estudando-se, maioritariamente num registo observacional cru, mas meticulosamente pensado na mesa de montagem, o caso de um homem, Serhiye, no seu regresso a casa depois de três anos na frente de batalha