A reboque do prestígio de “Kasa Branca”, na competição pelo troféu Redentor da Première Brasil 2024, um dos filmes cariocas mais potentes de 2023 volta ao debate e às telas – com projeção no Cinecarioca Penha, nesta quinta-feira – no Festival do Rio para sedimentar uma discussão sobre representações de vulnerabilidades periféricas: “A Festa de Léo”. É uma iniciativa de profissionais vindos do grupo teatral Nós do Morro, com talentos de outras áreas do audiovisual, unidos sob a direção de Luciana Bezerra e Gustavo Melo. Ambos fizeram parte do essencial “5xFavela, Agora Por Nós Mesmos” (2010), produzido por Cacá Diegues.
A sua exibição em espaço suburbano, após uma carreira por salas de diferentes mostras, leva a uma reflexão sobre como esboçar e esculpir personagens conectadas à microfísica da exclusão no Rio de Janeiro, na América do Sul. A narrativa evoca uma genealogia imagética. De todas as imagens lindas que fizeram de “Rio Zona Norte” (1957) um tratado sobre formas periféricas de se viver na metrópole que nos rodeia sob as bênções do Cristo Redentor, o sorriso de Grande Otelo na hora em que a sua personagem faz duo com Ângela Maria é a mais possante síntese da transcendência de que o cinema nacional tem notícia. Um espírito similar ao daquela risada cerca “A Festa de Léo”. No elenco, no trabalho de interpretação, há uma formidável troca de passes entre duas atrizes em estado de graça: Cíntia Rosa (sublime) e Mary Sheila.
Parceiros em múltiplas ações, Bezerra e Melo mostram que não apenas têm destreza para lidar com a gramática de uma longa-metragem como também dominam os rudimentos da História do Cinema. O filme deles é uma mistura de “Rio 40 Graus” com “Ladrões de Bicicleta”. A fotografia de Renato Falcão conversa atentamente com a centelha dionisíaca de tal tradição.
Cíntia é uma vendedora de barraca na praia que passa por toda a sorte de percalços para garantir ao seu filho um aniversário digno na celebração dos 12 anos. Mas o pai viciado do miúdo, Dudu (vivido por Jonathan Haagensen), vai lhe dar trabalho, com as suas indecisões.
Numa realização firme, os realizadores apostam numa refrescante trilha de aventura para dar um equilíbrio pop a um (melo)drama social realista. Parceiro de Luciana na curta-metragem “Acende a Luz”, Márcio Vito rouba para si cada sequência na qual aparece no papel do chefe da personagem de Cíntia.





















