Apesar das muitas indelicadezas e práticas de desemparo impostas ao Estado a habitantes de zonas periféricas do Rio de Janeiro, o clássico Cinco Vezes Favela (1962), responsável por catalisar muitas das bases teóricas do Cinema Novo (a nouvelle vague latina), impressiona até hoje pela sua habilidade em driblar os determinismos e catastrofismos ao apostar na solidariedade. Essa é a principal herança histórica de Kasa Branca, um dos concorrentes ao troféu Redentor do Festival do Rio 2024, e é com ela na medula que a primeira longa-metragem de ficção solo de Luciano Vidigal se distancia dos estereótipos da representação da periferia da cidade do Rio de Janeiro e de municípios ao redor.

A estética naturalista, que o Brasil depurou por meio da literatura, lá no século XIX, nas páginas de “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo (1857-1913), faz parte da dramaturgia dessa produção fotografada sob ângulos nada convencionais por Arthur Sherman. Tais vetores, entretanto, não estão ao seu redor como uma sombra, um fantasma, qual se via em Cidade de Deus(2002) ou Tropa de Elite(Urso de Ouro de 2008), a confinar o contingente a infortúnios encaixáveis em estatísticas sociológicas. Como se via no clássico da década de 1960, a união mesmo dos mais desfavorecidos estabelece vias de saída, rotas de resistência e uma palavra cada vez mais ausente dos discursos sul-americanos dos anos 2020: “esperança”. Trata-se de um retrato esperançoso da Chatuba, bairro do município de Mesquita, localizado no Rio de Janeiro, longe do mar e da sua “Zona Sul Maravilha”.

Um espectro de “Stand By Mede 1986 (“Conta Comigo) e de Superbad (2007) vem à cabeça na conexão entre três jovens que estão à procura de entender a vida numa geografia acossada pela escassez (de oportunidades de trabalho e de assistência hospitalar), nunca largando a mão um do outro. Dé (Big Jaum) é um deles. Vive sem trabalho, numa casa alugada com a avó, Dona Almerinda (Teca Pereira), vitima de um estágio selvagem de Alzheimer. A locatária, a quem chama de Bruxa de Blair, está sempre atrás dele, a cobrar o soldo da locação, que ele nunca tem. Uma vez ou outra, ele tenta dar alguma alegria a Almerinda ao leva-la para ver o movimento dos comboios – o que rende uma das imagens mais poéticas da produção carioca em anos recentes. 

A sorte de Dé é ele estar cercado por companheiros fiéis como Adrianim (Diego Francisco) e Martins (Ramon Francisco, hilário). Os dois também vivem os seus problemas, quase sempre no âmbito sentimental. O primeiro cometeu uns deslizes numa relação amorosa e está na fossa. A mãe, dona de um pequeno ginásio (Roberta Rodrigues, em fina atuação), acolhe o miúdo a dizer: “Às vezes é bom olhar a vida e mandar ela se foder”. Essa mesma senhora é o combustível dos devaneios eróticos de Dé, que sonha se declarar para ela, do jeito que der. Martins, por sua vez, está às voltas com novas descobertas eróticas, a três.

O Rio não é gentil com eles, mas o foco de Vidigal (numa lufada dramatúrgica de ventos que não escapam de armadilhas funcionalistas ou marxistas) não está nos dissabores, mas, sim, no companheirismo. A edição sinuosa de André Sampaio é sábia ao trançar um conflito no outro, de modo a aproveitar o melhor de cada um, numa Comédia Humana à la Balzac de um povo sem dinheiro, mas cheio de coleguismo. É um caminho que já havia sido aberto em 2023 por A Festa de Léo, de Luciana Bezerra e Gustavo Melo, e que se refina numa construção de personagens que superam limites arquetípicos. A beleza maior da câmara de Sherman é não ter pressa. É saber esperar, é ter tempo de contemplar, tanto as belezas que parecem simples quanto verdades que brotam silentes do olhar.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/umfg
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
kasa-branca-a-microfisica-da-esperanca estética naturalista, que o Brasil depurou por meio da literatura, lá no século XIX, nas páginas de “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo (1857-1913), faz parte da dramaturgia dessa produção fotografada sob ângulos nada convencionais por Arthur Sherman.