Vestida no argumento de que “os fracassos são melhores mestres do que os sucessos”, a psicóloga junguiana e escritora best-seller Clarissa Pinkola Estés escreveu em “Mulheres Que Correm Com Os Lobos” (1992) sobre o amálgama entre espera e aceitação no processo de reencontro do feminino com o seu lado primal, em tempos de reação, em tempo de sororidade. Nas palavras dela: “Dizem que tudo o que procuramos, também nos procura e, se ficamos quietos, o que procuramos nos encontrará. É algo que leva muito tempo esperando por nós. Enquanto não chega, nada faças. Descansa. Já tu verás o que acontece enquanto isso”. É sobre esse princípio que flui a reeducação sentimental da personagem vivida por Amy Adams em Nightbitch (exibido no Festival do Rio com o título de Canina).

A convulsão física e a mental que a acomete nos primeiros 30 minutos da narrativa – que começa feroz, com cortes rápidos, e passa a perder fôlego gradualmente até se afogar no didatismo – parece ir na contramão dos ensinamentos de uma autora hoje consagrada como porta-voz dos debates sobre o reencontro do instinto primevo e a resistência a ranços sexistas.  É um momento da longa-metragem de Marielle Heller (Can You Ever Forgive Me?) no qual a razão parece não dar conta do que a protagonista, chamada apenas de Mãe, sofre. Não por acaso, a realizadora dialoga com a corrente temática do chamado “extra-ordinário”.
Este é o termo usado para definir enredos nas raias do fantástico nos quais fenómenos fora da normalidade racional da Física, da Biologia e da Química acontecem sem justificação na franja do sobrenatural ou da ciência. É o mistério pelo mistério, como se vê em Trabalhar Cansa(2011), Swallow (2019) ou Shapeless (2021). Um mistério que leva o público a descobertas – e a autocríticas. No caso de Marielle, com base na literatura de Rachel Yoder, temos uma artista plástica que interrompeu o seu ofício para assumir o ónus da maternidade (devoção plena a uma criança, escassez de sono, transformações corporais) e, num momento de stress extremo, é alvo de estranhos (e animalizados) sintomas. Sem qualquer explicação aparente (o que torna o guião escrito pela própria Heller intrigante), cães de rua começam a cercar aquela mulher (sem nome) nos seus passeios no parque com o miúdo e a levarem animais mortos para casa. Ao mesmo tempo: a) pelos crescem no seu corpo; b) ela desenvolve um olfato mais aguçado; e c) quanto mais se frustra com o marido (Scoot McNairy, ator repetitivamente associado a arquétipos desvirilizados), mais ela passa a se animalizar.

Licantropia, uma doença que leva as pessoas a acreditarem estar a transforma-se em animais (mal que, folcloricamente, deu origem à lenda dos lobisomens), é a primeira alternativa que salta à mente do público, uma vez que Nightbitch parece, de início, querer namoriscar com a fantasia, e querer desafiar o realismo. Não leva muito tempo, entretanto, para que Marielle deixe essa trilha de lado e revele estar a construir uma metáfora para a opressão social inerente às imposições maternas. Nessa troca de caminho, o grande filme que esboçou perde a força como fábula (e como storytelling) e impõe-se como plenária de um discurso político. Todo o dinamismo da edição nos dois terços iniciais arrefece e mesmo a inquietante atuação de Amy cai numa instância retórica, menos exuberante. A potência, a urgência e a necessidade do que é dito são inegáveis (e bem-vindas), mas nota-se uma travagem formal, além do desperdício de uma linha imaginária que levaria o “extra-ordinário” a novas conquistas. Sobram entre os saldos preciosos da produção o desempenho subtil (às vezes comovente) da grande Jessica Harper (de “Suspiria”) como a bibliotecária Norma, que alimenta a figura de Adams de leituras feministas.

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Rodrigo Fonseca
nightbitch-licantropias-politicasA convulsão física e a mental que a acomete nos primeiros 30 minutos da narrativa - que começa feroz, com cortes rápidos, e passa a perder fôlego gradualmente até se afogar no didatismo – parece ir na contramão dos ensinamentos de uma autora hoje consagrada como porta-voz dos debates sobre o reencontro do instinto primevo e a resistência a ranços sexistas.