Fala-se da literatura com alento, como se fosse um analgésico, nas conversas que injetam naturalismo em “Los Destellos”, um dos títulos espanhóis de maior maturidade (plástica e dramatúrgica) do 72º Festival de San Sebastián, despertando alusões a um poema de Lope de Veja (1562-1635). Os versos dele dizem: “Ir e ficar, e com a permanência, partir, partir sem uma alma e ir com a alma de outra pessoa, ouvir a doce voz de uma sereia e não ser capaz de se afastar da árvore; a queimar como uma vela e se apagar”. Esse é o ritual que movimenta as personagens que a cineasta Pilar Palomero extraiu do livro “Un Corazón Demasiado Grande” (2017), uma coletânea de relatos da escritora basca Eider Rodríguez, cujo eixo temático parece ser sempre a conciliação. A versão para as telas dos seus contos vai pela mesma trilha.
Depois de “Las Niñas” (2020) e “La Maternal” (2022), dois títulos de pouco viço, Pilar avança por veredas estéticas mais ambiciosas ao criar uma (visceral) fricção entre a natureza e a cultura na observação do processo de rearranjo afetivo de uma mulher diante da perda anunciada do seu ex-companheiro e dos ruídos na relação com a filha. Interpretada com suavidade pela atriz Patricia López Arnai, Isabel leva o que chama de “uma vida frugal”, no campo. As paisagens de Horta de Sant Joan y Tortosa – usadas como locações da longa-metragem – acolhem bem a sua protagonista num cenário rural, de vegetação vívida. A sua rotina vinha a ser de calmaria até a filha, Magdalen (Marina Guerola), decidir que quer se reaproximar do pai, Ramón, figura sofrida, construída com marcas existencialistas por Antonio de la Torre.
Há pelo menos uns 15 anos, Isabel afastou-se dele e iniciou um novo relacionamento. Não se fala com todas as letras a razão que levou o ex-casal à separação, mas sabe-se que os dias de Ramón estão contados, em decadência de uma doença terminal. Magdalen sente que quer ficar perto dele, no seu calvário, movida pelo carinho abissal com que é tratada por ele, um apaixonado pela leitura e pela arte da escrita. No passado, o seu soldo vinha de trabalhos como vigilante e como fabricante de tijolos, mas, nas horas vagas, ele escrevia… e lia, muito.
Pouco se sabe da interação de Isabel com a prosa ou com poemas. O que fica óbvio sobre o seu perfil é a mágoa que sente de ter que se aproximar de alguém, hoje fragilizado, com quem cortou vínculos. O apreço de Magdalen por Ramón produz nela incómodos indisfarçáveis, não por raiva do seu antigo companheiro, mas pela sensação de que a harmonia que acreditou ter erguido para si é passageira, suscetível a ciúmes da sua cria.
Parece existir uma única solução viável para o desconforto de Isabel: acomodar o pretérito imperfeito do afeto em um novo arranjo. Para isso, ela vai se embrenhar numa geografia física de belezas naturais, nos moldes do que Lope de Vega diz nos versos que abrem este texto. Pilar regista esse périplo da sua heroína com movimentos de câmara delicados, aberta a closes, deixando que as pessoas falem (e muito), ciente de que os verbos podem exorcizar as feridas e formar istmos entre ilhas sentimentais há muito afastadas. A sua mirada (serena) demonstra cumplicidade com as angústias que a atuação firme de Patricia López Arnal sabe depurar nos seus olhares e silêncios.
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