A experiência de migração portuguesa para o Reino Unido, no pós crise de 2008 e falência de Portugal, que levou a uma assistência económica da denominada Troika (União Europeia, Banco Europeu e Fundo Monetário Internacional), tem levado alguns cineastas portugueses, com maior ou menor vigor na conexão ao cinema que Ken Loach impôs a partir dos anos 60 na Grã Bretanha, a entrarem nas águas turbulentas do fenómeno, recorrendo às armas que o realismo social lhes oferece.

Listen”, de Ana Rocha de Sousa, que triunfou na Orizzonti em Veneza, ou “Great Yarmouth: Provisional Figures”, de Marco Martins, que deu que falar em San Sebastián, são exemplos dessa incursão, mesmo que instituíssem dentro dessas ferramentas e tendências loachianas abordagens minadas de visões pessoais, onde se escapava a uma santificação da classe operária, captando essencialmente o seu desespero. 

On Falling”, de Laura Carreira, que já abordara o mundo do trabalho, rotinas e a condição do trabalhador nas curtas “Monday“, “Red Hill” e “The Shift“, tem na produção a Sixteen Films do próprio Loach. Tocando num sistema já focado em filmes como “Sorry We Missed You” (2019), ela debruça-se sobre o mesmo sistema ao contar a história de Aurora (Joana Santos numa atuação marcante), uma portuguesa emigrada para a Escócia que vive a contar tostões (ou pennies, mais concretamente) para sobreviver ao dia a dia na casa que partilha com outros elementos da “classe operária”, enquanto trabalha como “picker” (preparadora de pedidos de encomendas) num grande armazém. Mas onde o alemão Thomas Stuber, no seu curioso “In den Gängen”, encontrava magia e beleza a partir de ações rotineiras no dia a dia de um Cash & Carry, Laura Carreira impõem uma neutralidade soturna de rotina alienante e vacuidade existencial.

Alienação” é mesmo a chave desta incursão de Laura pelo mercado do trabalho nas economias liberais, uma palavra que ganha novos contornos quando ela, conhecida como B83-45-56 no sistema informático do armazém, tem a sua revelação, o “despertar” para a sua condição, numa entrevista de emprego. Quando lhe perguntam o que gosta de fazer depois de um dia de trabalho, ela não sabe responder, como que olhando para dentro de si própria e encontrando um enorme abismo.

Num mundo cada vez mais automatizado, em que para falarmos com os Recursos Humanos não subimos umas escadas, entramos numa sala, e falamos com uma pessoa, mas efetuamos pedidos através de uma App, também as relações humanas acabam por se tornar assim: distantes e  automatizadas. Por isso mesmo, não admira que trabalhadores que almoçam todos dias na cantina do armazém não saibam o nome da pessoa que está dois lugares ao lado, nem se lembrem da sua cara, ou discutam em grupo atos de desespero extremo que atingiram colegas. Este é um mundo onde o prémio de eficácia tem a forma de um chocolate no fundo de uma caixa, e uma ida a uma loja de cosméticos, onde nos fazem uma demonstração de maquilhagem, acaba por ser o momento mais excitante e libertador dos últimos tempos. Libertador, pelo menos, até ao momento em que descobrimos que o livre-arbítrio é uma falácia, pois a “neutralidade” (seja na cor de maquiagem que se escolhe, seja em todas as nossas pseudo-escolhas do dia a dia) é o desígnio máximo para uma integração saudável em busca da sobrevivência e até reprodução na sociedade onde estamos inseridos. Naquele momento, em que escolheu o azul em vez de uma cor mais neutra para dar luz ao seu rosto, Aurora sentiu-se Aurora. Um momento meramente temporário, “antes de cair na realidade”, e voltar a ser a B83-45-56.

Analisando, a partir da experiência pessoal de uma mulher, inserida num movimento laboral universal, “On Falling” nunca cai no miserabilismo e até despreza o que poderia ser o seu momento de “purificação”, a sua catarse, após uma descarga emocional gritante, onde um ombro e uma “mão” que nos ampara perante o abismo emocional revelam a chave da condição humana. E ao fazer isso, mesmo com o selo da marca Loach agarrada aos créditos, o filme ganha contornos ímpares, num ato de “rendição” a um sistema que não só produz vítimas, como tem a capacidade de as fazer crer que não há nada de errado com isso, que tudo é normal e que tudo é a vida.

Uma bela e dura primeira longa-metragem de Laura Carreira, que parte de uma “experiência portuguesa” contemporânea no Reino Unido para nos dar um pulsar do mundo com tudo de universal.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
on-falling-a-impactante-estreia-de-laura-carreiraUma bela e dura primeira longa-metragem de Laura Carreiras, que parte de uma "experiência portuguesa" contemporânea no Reino Unido para nos dar um pulsar do mundo com tudo de universal.