Great Yarmouth – Provisional Figures: espectros do êxodo

Nos cinemas a 16 de março

(Fotos: Divulgação)

Houve poucos consensos na crítica cinematográfica presente em San Sebastián, na sua edição número 70, acerca da sua errática competição, fora os méritos técnicos do checo “Il Boemo“, a convulsibilidade de “Le Lycéen“, de Christoph Honoré, e a realização impecável de Marco Martins, o único português na competição. A forma com que conduz “Great Yarmouth – Provisional Figures” impressionou as plateias que sofriam com a luta dos imigrantes lusos em terras inglesas.

Há quem defina a nova longa-metragem do realizador de “São Jorge” (2016) como um “filme de fantasmas” pela sua aposta numa certa espectralidade etnográfica no desenho das mulheres e homens que saíram de Lisboa e dos seus arredores para procurar a prosperidade financeira em Norfolk, numa Grã-Bretanha pré-Brexit, em 2019. E a recente morte da Rainha britânica ampliou os holofotes sobra o drama de tons fantasmagóricos do cineasta.

Marco Martins

Portugal sempre foi um país de imigrantes, em toda a sua História. Mas, a partir de 2009, com a crise económica, a nova vaga da imigração não se focou na Alemanha ou na França e, sim, em terras inglesas. Cerca de 150 mil portugueses foram para o Reino Unido e, muitos, foram encarar trabalho pesado, com se vê no filme, o que contraria o ‘english dream’ que alguns cultivavam“, diz Martins ao C7nema. “Quando comecei o processo de pesquisa com aquela comunidade, há uns cinco anos, ninguém que estava lá queria falar comigo, por pudor de revelar o que viviam e o quanto essa vida era distinta do que buscavam e do que falam para os parentes e amigos que ficaram“. 

Sem apelar para procedimentos documentais, Martins faz um inventário de cicatrizes ficcionais a partir dos relatos que colheu, criando uma tocante saga sobre resiliência, na fronteira do naturalismo. Vai por um caminho distinto de “Listen” (2020), longa-metragem portuguesa laureada nos Horizontes de Veneza que fala de um casal lusitano em Londres, na luta para cuidar de uma filha com problemas auditivos. 

Não sigo o caminho do realismo social, pois tento mostrar como a imigração gerou uma zombificação daquelas pessoas“, diz Martins, que finta ainda possíveis analogias com a estética de Ken Loach e o seu cinema marxista. “O que me afasta dele é a própria natureza do meu cinema, que constrói uma geografia do desterro a partir da lógica dos fantasmas que assombram as personagens. E não faço uma santificação da classe operária. Pelo contrário: capto o seu desespero“.

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