Assombrado por um filme de culto (“O Corvo” de 1994) que marcou o adeus de Brandon Lee (1965-1993) da vida, a nova versão da banda desenhada “The Crow”, de 1989, é uma aparvalhada tentativa de se criar um thriller de ação de tintas fantásticas. O foco são as suas sequências românticas – ainda assim muito melosas. Rupert Sanders saiu do fracasso “Ghost In The Shell” (2017) com o intuito de restaurar uma marca pop mítica, dialogando com a estética de uma BD graficamente sofisticada para os padrões de uma indústria solapada pela Marvel e pela DC. A sua intenção, no entanto, não se materializou com um mínimo de excelência, uma vez que a sua narrativa gasta (leia-se “perde”) quase uma hora até a viragem na qual o protagonista assume o seu fardo anti-heroico. Não há qualquer noção de timming na montagem, o que torna enfadonho algo idealizado para ser um espetáculo de ação. Mesmo com o carisma abissal de Bill Skarsgård, a personagem título, Eric, não ganha elementos que lhe garantam tridimensionalidade, resultando numa figura trivial de filmes de luta, sem alma e sem lei.

No início dos anos 1990, Alex Proyas (de “I, Robot”) partiu da mesma argamassa dos comics e, com o apoio de uma luminosa atuação de Brandon e de Michael Wincott, criou uma espécie de ópera rock trágica, capaz de sintetizar uma série de tendências estéticas da Era MTV. Fez um filme com essência de videoclipe, que conversava com todas as pesquisas culturais daquele início de década, na música e no cinema. Encontrou ainda um caminho de mesclar o sobrenatural (nas raias do gótico) a um enredo policial de vingança realista. Alcançou pleno equilíbrio entre sequências poéticas de amor e de perseguições, com pancadaria e tiros. A tragédia de Brandon – morto por um tiro real durante as filmagens – só fez ampliar o interesse do público pela visão de Proyas sobre uma paixão capaz de vencer os desígnios da Morte. Nada disso se torna palpável na versão de Sanders.

Protocolar na sua abordagem de combates, o atual “The Crow” avança ao longo dos seus 40, 45 minutos iniciais como uma história de amor em situação de perigo. No guião estruturado por Zach Baylin e William Josef Schneider, a partir do Grand Guignol gráfico do argumentista e ilustrador James O’Barr, a jovem Shelly Webster (FKA Twigs) vai parar a um reformatório para fugir do chefe do crime Roeg (um caricato Danny Huston), que entrega as almas das suas vítimas ao Diabo em troca do sucesso. Lá, ela conhece Eric (Skarsgård), um homem de passado sofrido. Os dois fogem e acabam se apaixonando, vivendo um idílio perfeito, até serem brutalmente assassinados por capabgas do vilão. Por conta da conexão de Roeg com o Mal místico, Eric tem o seu espírito desviado para uma espécie de limbo, onde um guia espiritual, Kronos (Sami Bouajila, na única atuação inspirada de todo o filme), oferece-lhe a chance de regressar à Terra, como um vigilante. A sua revanche contra os assassinos da sua amada há de garantir paz à alma da moça, salvando-a do Purgatório.

Na estilizada longa metragem de 1994, como na BD, essa vingança era carregada de um tom lírico soturno, no qual a justiça parecia ser o motor de cada gesta do Corvo vivido por Brandon. Na releitura de Sanders, a essência melancólica de O’Barr permanece, mas não há uma reflexão sólida sobre o motivo da vingança. O que sobram são golpes mal coreografados numa fotografia que desperdiça o chiaroscuro.     

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
o-corvo-e-condenado-a-danacao-dos-filmes-sem-almaNão há qualquer noção de timming na montagem, o que torna enfadonho algo idealizado para ser um espetáculo de ação.