Saíndo de uma postura mais intelectual e de expansão concreta do universo Alien de “Prometheus” e “Alien: Covenant”, “Alien: Romulus”, assinado por Fede Alvarez, é todo ele “praticidade” e uma tentativa de almejar o estatuto de “fun ride” despretensiosa. Se na sua forma escapista, de consumo imediato sem beliscar o legado, o filme até é nos mínimos sucedido, no conjunto do franchise é tão descartável que mete dó.
Existe uma engano profundo no conceito de fã de qualquer saga: que este fã come tudo o que lhe aparece pela frente sem esbracejar porque o que lhe interessa é ver mais e mais de um universo que ama. É um erro (ou desculpa) mercantil assumir que os fãs, pelo menos os verdadeiros fãs, pouco se interessam pela qualidade, associando muito esta à mera nostalgia de os tornar novamente crianças ou adolescentes. Existe isso nos filmes da Marvel, em Star Wars, em Senhor dos Anéis e até na recente Guerra dos Tronos. Não podia ser mais errado pensar que aquilo que “os fãs” querem é apenas a máxima serialização dos seus amores, independentemente do que têm de novo para mostrar e que de “velho” vão buscar.
“Alien: Romulus” é um bom exemplo do que falo, pois quando requisita a nostalgia e personagens do passado é trapalhão, enquanto naquilo que apresenta de novo é vulgar, pelo menos quando não tropeça em atuações desastradas de praticamente todo um elenco (com a exceção de David Jonsson) que veste personagens derivativas, deslocadas e pouquíssimo interessantes.
Requisitando atores bastante jovens, Alvarez parece que foi buscar às comédias (e até filmes de terror) norte-americanos o modus operandi do habitual grupo de miúdos fanfarrões egoístas e incompetentes prontos para serem chacinados por um serial killer qualquer ou criatura, que neste caso é o xenomorfo. A verdade é que essa incompetência generalizada convém à narrativa para criar espetacularidade visual e trazer ritmo. Por isso, é frequente e até assustadora a opressão a qualquer racionalidade e pragmatismo neste filme, a maioria das vezes materializada pelo único do grupo que é definido como “artificial”. No mais, tudo é emoção primária, mesmo que se arrisque a morte de todos e da própria humanidade. Ninguém fica para trás, diz-se, num espírito de que tudo é crença e muito pouco é facto para racionalizar.
No centro de tudo está Rain (Cailee Spaeny a falhar no carisma), uma jovem que trabalha numa colónia mineira e que achava que finalmente tinha completado a sua dívida para com a companhia. Achava, pois os 12 anos de trabalho que tinha para o fim do seu contrato foram duplicados unilateralmente pelo “patronato”, impedindo-a de sair do planeta onde está acompanhada pelo seu “irmão” Andy (Jonsson), um androide cuja diretiva é protegê-la. Juntamente com um grupo de amigos que decide se rebelar e sair do planeta onde estão, Rain e Andrew roubam uma uma nave espacial que lhe proporcionará uma passagem segura para outro planeta. Porém, pelo caminho, este grupo encontra uma estação espacial abandonada que alberga xenomorfos, que rapidamente começam a atacar o grupo.
Para os habituados ao que significa a “arma de Tchekhov”, Alvarez coloca como primeiro entrave à entrada do grupo na estação espacial uma gravidade zero que vai e vem, num jogo de estabilização da estação espacial. Com isto, o espectador minimamente conhecedor das regras narrativas sabe perfeitamente que esse artifício, que se apresenta como banal e até irrelevante, terá uma qualquer importância mais à frente. Se aliarmos a isto um grupo de fanfarrões que sabemos que será carne para empilhar corpos pelos xenomorfos, resta apenas descobrir se no final haverá alguém que sobre para contar a história. Por ser tão descarado na forma como começa a história e apresenta as personagens, e sabendo como Hollywood atua perante uma saga cuja grande heroína foi uma mulher, Ripley (Sigourney Weaver), “Alien: Romulus” também responde rapidamente à questão de quem é o herói, sendo até nisto um objeto previsível no seu percurso.
Se juntarmos tudo isso ao facto do filme estar enquadrado entre o terror e a ação num período temporal entre “Alien” e “Aliens”, de Ridley Scott e James Cameron, respetivamente, então tudo o resto que vem a seguir ora é derivativo, ora é dèjá vu.
Fosse no tempo da 20th Century Fox, seja agora no tempo da Disney ( a dona disto tudo), a saga “Alien” sempre foi/é eficaz tecnicamente, por isso estar a dizer que esta última entrega da saga também o é, é simplesmente redundante. E como é habitual nos novos filmes Disney, os riscos e o arrojo são sempre controlados, numa posição clara de tentar agradar ao máximo a todos, o que transforma todo este “Alien: Romulus” num capítulo episódico e facilmente esquecido, embora durante o período que se assiste não seja propriamente algo que possamos definir como perda de tempo.




















