Uma das tendências da programação da 77ª edição do Festival de Locarno tem sido o estudo da nossa relação com a Inteligência Artificial, elemento que parece ter ganho uma segunda vida (principalmente graças à massificação do uso do ChatGPT e ferramentas semelhantes). É que se nas décadas de 80, 90 e 00’s o que regia os contributos da arte para o tema estavam no terreno da ficção científica, a sua aplicação recente levanta as mesmas questões de sempre. Nesse sentido, Edgar Pêra foi ao extremo de criar e estrear na suíça um filme a partir de imagens trabalhadas pela tecnologia (Cartas Telepáticas), enquanto “Electric Child”, de Simon Jaquemet, volta a soar o alarme quanto às potencialidades da IA, mas também os seus grandes riscos, sejam pessoais e ou comunitários.
Derivativo de muita literatura e cinema que se fez no pós “Neuromancer”, “Electric Child” segue um casal, Sonny (Elliott Crosset Hove) e Akiko (Rila Fukushima), absolutamente encantados com a chegada do primeiro filho. Porém, as coisas mudam quando o médico lhes dá notícias terríveis sobre o estado da criança, o que leva Sonny, que trabalha para uma empresa que está a desenvolver instrumentos de Inteligência artificial geral (“IA forte” ou “nível humano”, por ser capaz de executar tarefas similares às realizadas pelos seres humanos), e decide socorrer-se dessa superinteligência para provar que os médicos estão errados. Porém, cada vez que este homem toma uma decisão e invade um “mundo artificial”, arrisca uma reação preocupante e perigosa no mundo “real”.
Não existe absolutamente nada de novo (na estética e arranjo formal) na abordagem de Jaquemet ao tópico, que acaba por derivar numa espécie de drama faustiano em que o pacto não é feito com o Diabo em si, mas com uma IA Forte, que se compromete a salvar o filho do protagonista. Esse “mundo virtual”, que se assemelha ao real, manifesta-se visualmente na forma de uma criança perdida numa espécie de ilha e que tem que aprender a sobreviver. E “aprender” é a palavra-chave do filme, pois à medida que essa IA vai ganhando capacidades – que a aproximam dos neurónios humanos e das suas potenciais conexões -, começa a achar o mundo que lhe foi entregue curto, procurando sair dele. Fãs da teoria da “simulação” (que vivemos todos numa) e dos pensamentos de Yuval Noah Harari (“Homo deus”) encontrarão aqui um filme fantástico que explora conceitos com dimensão política, filosófica e social, mas que visualmente revela limitações que raras vezes o fazem sair da mera reciclagem da velha história do cientista louco.
A forma como o realizador expõe cinematograficamente, por exemplo, o mundo virtual criado, e as visitas constantes de Sonny a ele, é um bom exemplo de limitações criativas, revelando uma falta de potência visual e emocional. A isto some-se a escassa construção de personagens satélite em relação ao trio condutor da ação (Sonny, a IA Forte e o bebé), onde se incluem Akiko, que tanto podia acrescentar na questão da lucidez das decisões, e o português João Nunes Monteiro, como um programador eticamente responsável próximo de Sonny.
No final, o melhor de “Electric Child” não é o filme em si, mas a escolha temática que poderá levar muitos a investigar o quão próximos estamos do Homo Deus que Harari fala.




















