Fazedor de um cinema onde cada palavra conta e não se esvazia em si mesma num ensaio de pretensiosismo, Paul Schrader regressa a Cannes com uma adaptação do trabalho do romancista Russell Banks, autor que já no passado o tinha inspirado a adaptar ao grande ecrã – “Affliction” – com a ajuda de Nick Nolte e James Coburn no elenco.

E ao invés do Festival de Veneza, onde têm estreado os seus mais recentes trabalhos (First Reformed; The Card Counter; Master Gardener), desta vez foi Cannes (por lá ele tinha estreado “Mishima” e “Patty Hearst”) a exibir o seu mais recente projeto, “Oh Canada!”, filme onde o legado sob o peso da doença, mortalidade e memória provocam solavancos num eventual caminho para a redenção.

No centro do filme de Schrader está Fife (Richard Gere), um cineasta com uma doença terminal que acede a ser entrevistado por dois antigos alunos, transformados em cineastas consagrados, Malcolm (Michael Imperioli) e Rene (Caroline Dhavernas). Saindo da sua cama, onde espera a morte, e dirigindo-se para a entrevista, juntamente com a esposa, Emma (Uma Thurman), a tensão deste homem moribundo, à causa de um cancro, com a dupla que o vai entrevistar, sente-se imediatamente. Mas é quando a entrevista começa, efetivamente, e a narração de alguns factos da sua vida começam a ser captados pela câmara da dupla de realizadores que a confusão entre o real e o imaginado, vítimas de uma memória também ela carcomida pela doença, atingem o espectador, não o deixando perdido ou entediado, mas suavemente a refletir perante os eventos da vida de Fife, mas também com consciência na sua mortalidade e da nossa. 

Num elenco seguro, mas de personagens reduzidas e incapazes de serem um pouco mais do que peões ao serviço do holofote apontado a Fife, e, consequentemente, a Richard Gere, o eterno “American Gigolo” de Schrader, facilmente o filme limita em demasia a sua área de ação e o seu fulgor dramatúrgico, não sendo os temas abordados esmiuçados com a profundidade expetável.

É certo que existe destreza em deixar o diálogo e meditação sobre tudo o que é mostrado com o espectador, que eventualmente preenche as questões levantadas na sua mente, mas comparativamente aos filmes anteriores do realizador, e apesar da forma ligeira com que a trama se constrói, “Oh Canada!” sente-se sempre um objeto menor. E não apenas na sua ambição, mas principalmente na sua potência cinemática.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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