Longe de ter o reconhecimento merecido para um artista responsável por lapidar diamantes como “Affliction” (“Confrontação” em Portugal; “Temporada de Caça” no Brasil”), Paul Schrader atravessa uma fase de exuberância (filosófica e formal) na sua obra como realizador ao alicerçar as narrativas mais recentes em histórias sobres bestas presas em corpos disciplinados. Em 2017, “First Reformed” valeu-lhe a nomeação ao Oscar de Melhor Guião Original, narrando a guerra interna de um capelão militar diante do desejo por uma gestante chamada Maria, como a Virgem da Bíblia. O seu interesse pelos ritos da fé cristã dá a uma trama muito bem defendida por Ethan Hawke e Amanda Seyfried um lugar de metáfora dos calvários de um mundo polarizado por diversos ódios. Na pandemia, em 2021, ele volta ao cinema, via Festival de Veneza, com “The Card Counter”, explorando a monstruosidade que o às das cartas vivido por Oscar Isaac tenta esconder em lances exuberantes com naipes do baralho. Ali, também será uma mulher (vivida por Tiffany Haddish) quem vai abrir a sua Caixa de Pandora particular. A mesma operação se faz notar com o sublime “Master Gardener”, exibido em 2022 no Lido, quando o cineasta recebeu um Leão de Ouro honorário. O meio mais fácil de se entender a trilogia que se ensaia entre esses filmes – há uma quarto, com Richard Gere, já em gestação – é uma frase do escritor japonês Yukio Mishima (1925-1970), cujas andanças por este mundo Schrader biografou num filme exuberante, concorrente à Palma de Ouro de 1985.
Mishima dizia: “Ninguém sequer imagina o quão bem podemos mentir sobre o estado do nosso próprio coração”. Ao longo de uma carreira literária composta por “Confissões de uma Máscara” (1949) e “O Templo Dourado” (1956), o romancista faz-se nietzschiano e crava: “Quando olhas para o mundo com conhecimento, percebes que as coisas são imutáveis e ao mesmo tempo estão a ser constantemente transformadas”. É nesse devir que se encontra o jardineiro Narvel Roth, interpretado pelo australiano Joel Edgerton, como se fosse uma figura impávida, mas eivada por pântanos das inquietações existencialistas. Aluta para manter o lobo do homem no seu peito na forma de cordeiro, não de ave de rapina, imprime uma tensão crescente em torno de uma narrativa delineada pela onipresente banda-sonora de Devonté Haynes (contínua, porém, utilitária, capaz de enlevar).
Edgerton faz-se – e brilhar – nos projetos mais variados, desde que despertou o olhar atento da crítica – e dos produtores de casting – em “Animal Kingdom”, em 2010. Fez jus a essa aposta na suas parcerias com Jeff Nichols, em “Midnight Special” e “Loving”, concorrentes ao Urso de Ouro e à Palma de Ouro respectivamente, ambos em 2016. Uma vez mais, o seu talento para criar tipos implosivos faz-se notar. Narvel é um sujeito calmo, que fuma um só cigarro ao dia, fala baixo, tem senso de equipa e faz de tudo para agradar a patroa, a Sra. Haverhill, uma aristocrata que dá à atriz Sigourney Weaver espaço de sobra para expor o seu ferramental cénico vasto.
No meio das rosas de Gracewood Gardens, quinta que a viúva Haverhill cultiva por apreço à Natureza, Narvel vai ser mais do que um jardineiro. Ele é seu guardião, o seu brinquedo sexual e fixer, termo que os americanos usam para profissionais responsáveis por livrar as pessoas de problemas. A sua tarefa será assumir a guarda da problemática sobrinha-neta da patroa, a jovem Maya (uma inspirada Quintessa Swindell), a quem vai transformar em aprendiz. Mas a chegada da jovem, com um histórico de arruaças e confusões, liberta os espíritos maus que o artesão da jardinagem trancafiou no seu pretérito imperfeito, pouco destrinchado no argumento, mas insinuado através de sinistras tatuagens carregadas no seu corpo.
Aí temos um indício histórico da forma de autor de Schrader, que já se faz notar na escrita do guião de “Taxi Driver”, Palma de Ouro de 1976: a sua filmografia gravita entre os pecados e as culpas. As suas personagens têm a ciência exata dos seus crimes e das atrocidades que podem provocar, mas estão atrás das clareiras da redenção. É assim com o sacerdote vivido por Hawke em “First Reformed” e no ex-soldado (para não revelarmos muito) encarnado por Isaac em “The Card Counter”. Narvel traduz um conceito que Schrader encontrou também em Mishima: “Aquele que fala do herói com desprezo e desdém é sempre um homem em que a falta de atributos heroicos é notória. O culto do herói é o princípio básico do corpo e acrescenta muito à alma humana. O que salva a carne de ser ridícula é a presença da morte que existe no corpo vigoroso e saudável. É essa presença que sustenta a dignidade da carne”, escreveu Mishima.
Suavizado pela fotografia serena de Alexander Dynan, o calvário de Narvel é carregar os grilhões de um tempo em que a intolerância era a sua identidade. Como sempre acontece em Schrader, serão as mulheres, com a sua sabedoria, que vão redimi-lo. Não por acaso, todos os acontecimentos importantes passam-se num jardim dos subúrbios que parece o Éden. Mas essa redenção não é sacra. O sagrado em Schrader é demasiadamente humano. Ele olha para dentro do abismo para que o abismo se transforme em cinema diante de nós, a sua plateia. O resultado é a transcendência.



















