Títeres encenam épicos ou tragédias em diferentes momentos de “Grand Tour”, num reflexo das tradições de Myanmar nos tempos em que era Birmânia… os tempos de jugo colonial. Esse jugo é o tema essencial da obra de Miguel Gomes, como se viu no aclamado “Tabu” (2012), tratado sempre sob a ótica de uma certa alienação europeia frente ao ranço histórico das suas invasões estrangeiras. Os países que outrora quiseram ter o controle do mundo, tentaram pasteurizar sociedades, infectando-as com os seus costumes e língua. Rangum, cenário do novo filme de Miguel Gomes, é maculado por esta infecção geográfica. Mas é sob essa mácula que uma saga de autoafirmação vai se desenhar.
Parente lusitano do esquecido “The Sheltering Sky” (1990), relacionado diretamente a ele pelo tema e pelo olhar sobre a inquietude, “Grand Tour” acompanha a reeducação do olhar da corajosa Molly (Crista Alfaiate) em terras asiáticas. Em 1917, ela é abandonada pelo noivo depois de anos de relacionamento. O rapaz, Edward (Gonçalo Waddington), refugia-se em Rangum para evitar as bodas, mas ela segue-o. Mergulha num mundo que não é o seu, de códigos avessos aos seus. Lá, vai-se apaixonar por si, vai encontrar novas alegrias para rir do seu modo peculiar. Discute-se decadência, discute-se tradição, discute-se exotismo. É um estudo de etnografia poética, sem o humor irónico característico de Gomes. Há, pelo contrário, uma dimensão trágica na sua forma de devassar a condição de Molly e das paisagens que a rodeiam.
Apoiado numa fotografia em preto e branco nas raias do esplendor, assinada por Rui Poças, Liang Gui e Sayohmbu Mukdeeprom, “Grand Tour” funde a Ásia de ontem com a de hoje. Existem as encenações do passado, feitas com austeridade, e há imagens do presente, com carros e motos das mais modernas. Esse contraponto é uma forma de expor o quão perpétuo é o fantasma do colonialismo e o quão passageira é a cilada amorosa de Molly. Num mundo que foi devassado pelos colonizadores, aquela mulher vai passar por um processo de aprendizagem sobre os males da História. A direção de arte é exuberante, assim como o uso inusitado da banda-sonora.





















