Passado na era vitoriana (1837-1901), em plena explosão do movimento pré-rafaelita da arte, constituído em 1848 com o objetivo fundamental de recuperar a pureza e claridade que caracterizavam algumas das pinturas medievais anteriores ao pintor renascentista Rafael, “O Pior Homem de Londres” acompanha uma personagem portuguesa – Charles Augustus Howell – que se transformou no maior marchand de arte e que trabalhava com os maiores rostos da pintura da época. Personagem cerebral e ambígua, envolvido em chantagens, Charles chegou a ser catalogado por Arthur Conan Doyle com o epíteto de “O pior homem de Londres”, transformando-o mesmo num arqui-inimigo do Sherlock Holmes em “The Adventure of Charles Augustus Milverton“.
Rodrigo Areias, na sua primeira colaboração com Paulo Branco, escolheu o “internacional” Albano Jerónimo (A Herdade) para assumir o protagonismo, vestindo este a pele de um lobo na pele de cordeiro, sempre preparado para maquinações que lhe acrescentem poder, seja através da relação muito próxima com pintores e poetas, com quem assume contratos de exclusividade, mantendo-os muitas vezes dependentes do láudano para que estes consigam trabalhar, seja através de jogos de bastidores com a aristocracia, ou até a participação em conspirações políticas para elevar a sua condição social. Mas apesar de ser uma figura de proa no mundo da arte, um homem que todos gostariam de ter perto, se existe algo que no filme de Rodrigo Areias salta bem à vista é que nunca, por ser português de origem, ele é considerado um igual aos britânicos, algo que internamente o corrói e o leva a muitas das ações que vemos em cena.
Um dos produtores portugueses mais ativos e importantes da atualidade, Rodrigo Areias, que entre muitos outros trabalhos realizou “Estrada de Palha”, “Hálito Azul” e “Surdina” consegue acertar no tom de thriller – com ajuda da direção de fotografia que replica o estilo dos pintores da época – na sua exploração dramática de eventos, tendo em Albano Jerónimo uma mais valia, capaz de assumir uma personalidade dúbia que se movimenta nas luzes, mas igualmente nas trevas, para alcançar os seus objetivos, custe o que custar.
Em sentido contrário, sente-se um pouco a duração do filme (era necessária uma montagem mais enxuta) e uma exploração mais frontal e poética de certas personagens secundárias, como as interpretadas por Victoria Guerra (Lizzie Siddal) e, especialmente, Carmen Chaplin (Lady Posselthwaite), a qual acaba por ser uma das maiores barreiras que Charles Augustus Howell encontra para alcançar os seus desígnios.




















