Presente na Un Certain Regard do Festival de Cannes este ano, e agora na programação do MOTELx, “Hounds” é uma vertiginosa viagem de um pai e um filho pelo submundo de Casablanca com uma missão tão indesejada como perigosa: livrarem-se do cadáver de um homem que morreu nas suas mãos.

Na verdade, essa morte não era programada. A missão deles era apenas o sequestro, mas quis o destino que o homem morresse sufocado na bagageira da carrinha da dupla, que conhecemos inicialmente estar ligada à luta ilegal de cães.

Primeira longa-metragem do argumentista e realizador Kamal Lazraq, “Hounds” mostra uma sociedade empobrecida e marginalizada, “obrigada” a pequenos crimes para ganhar dinheiro rápido. O curioso, é que nessa vida, esses pequenos criminosos seletivamente fazem uma hierarquização da importância dos valores islâmicos, preocupando-se com a quebra de valores e tradições religiosas de forma hipócrita. Assim, a morte foi involuntária e o livrar-se do corpo parece ser a única solução, mas pelo meio têm que cumprir certas tradições, como lavar o corpo do falecido, para tentarem evadir-se do inferno no final das contas das vidas que viveram.

Passado no espaço de uma noite e com o diretor de fotografia a tentar socorrer-se da iluminação “natural” dos espaços que percorrem (as luzes dos postes, dos faróis, das estações de serviço, barracões etc), existe uma tendência para os amarelos e laranjas em contraste com a escuridão da noite, contribuindo assim para um maior mistério e potencial surpresa para oque possa surgir da escuridão. E essa escuridão iluminada a espaços sente-se também no interior das personagens, com decisões morais a serem ajustadas a cada passo e contratempos que atravessam, sempre de olho no islão e nas superstições pessoais (como o vermelho ser uma cor de azar).

Questões sociais como a pobreza cruzam-se assim com carreiras criminais recheadas de brutalidade e corrupção (institucional e moral) rotineira, num filme que ganha maior vivacidade e força pela atuação naturalista dos não-atores escolhidos para o protagonismo. E nessa força de atuação, a relação pai-filho vai ser avaliada e posta em causa pelas palavras, atitudes, olhares e silêncios.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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