É através da justaposição dinâmica de três períodos que Christopher Nolan leva até ao espectador a história do apelidado “pai da bomba atómica” e líder do Projeto Manhattan, Julius Robert Oppenheimer (1904-1967), um homem repleto de complexidades e fantasmas internos que foi peça central na corrida ao armamento contra a aliança do Eixo (Alemanha, Itália, Japão), mas que mais tarde viu-se perseguido pelo Macarthismo, mostrando que, tal como muitos outros, passou de bestial a besta por interesses estratégicos e políticos que se escondiam nas sombras do conservadorismo.

Mas mais que um elíptico debitar de eventos históricos, engenhosamente montados e fotografados por Jennifer Lame e Hoyte Van Hoytema, respetivamente a que se adiciona uma engenharia de som assombrosa a cargo de Randy Torres, “Oppenheimer” revela-se principalmente o estudo de uma personagem, da sua consciência e da sua responsabilização, não apenas a partir do momento que criou uma arma de destruição maciça que mudou o mundo e cuja utilização depende de orientações políticas, mas igualmente quando teve de lidar com demónios internos e estados depressivos em jovem. 

A verdade é que foi a bomba nuclear, ensaiada com o teste Trinity no Novo México (16 de julho de 1945, nos EUA), e aplicada em Hiroshima e Nagasaki no Japão (6 e 9 de agosto de 1945), que se encerrou – definitivamente o conflito mais bárbaro do século (2ª Guerra Mundial), mas se lançaram novos tempos, os da Era Atómica, abrindo-se uma nova doutrina armamentista, agora com EUA e URSS a medirem forças e nervos durante a chamada Guerra Fria (1947-1991). 

Cabe ao irlandês Cillian Murphy absorver os trejeitos, forças e fragilidades de Julius Oppenheimer, descendente de uma família judia, o qual, como tantos no seu tempo, entre a ascensão dos fascismos e a Grande Depressão, colou-se a pensamentos de esquerda. Com isso, caiu na convivência com elementos do Partido Comunista, como o seu irmão Frank (Dylan Arnold); a sua primeira paixão, Jean Tatlock (Florence Pugh); e a aquela que viria a ser a sua esposa,  Katherine “Kitty” Oppenheimer (Emily Blunt). Visitante de vários eventos comunistas, mas nunca se filiando no partido (PCUSA), além de ceder dinheiro a causas anti-fascistas como a Guerra Civil Espanhola, Julius viu essas conexões e passado interessarem menos durante a construção da bomba atómica, mas ganharem maior atenção e segregação quando se tornou um opositor à bomba termonuclear (bomba de hidrogénio) e chocou de frente com Lewis Lichtenstein Strauss (Robert Downey Jr.), que engendrou a forma de o outrora heroi (e capa da Revista Times) perder as credenciais de segurança e a sua voz ativa nos planos de armamento.

Como disse anteriormente, Nolan afasta-se da linearidade cronológica dos eventos e prefere um formato elíptico de intersecções de diversos momentos da história, nunca se perdendo o espectador nessa viagem e sem existir qualquer déficit no ritmo durante os 180 minutos de filme. É, aliás, essa energia, das três horas que passam sem se sentir como tal, e uma notória ausência de gorduras ou demasiados subenredos, que residem algumas das maiores qualidades de um filme que, do primeiro ao último momento, põe na sua equação um tom anti-belicista, mesmo que questione constantemente e dê voz às diferentes perspectivas.

Um bom exemplo disso é a discussão da verdadeira necessidade de lançar as duas bombas atómicas nas cidades japonesas quando já se vislumbrava a vitória dos EUA  e se sentia no terreno a derrota das tropas do imperador Hirohito. Se essa derrota era já palpável, a verdade é que o espírito nipónico dessa época negava-se à rendição ( que aconteceu em 15 de agosto de 1945), ganhando o lançamento dos dois engenhos o seu efeito devastador uma dimensão espiritual, de destruição maciça de uma ideia e de um modo de ser do Império do Oriente, e um aviso a outras super potências, como a URSS. Por isso mesmo, diz-se igualmente que a Guerra Fria começou com o Projeto Manhattan, com réplicas a surgirem de todos os quadrantes e pontos do globo. 

Nolan, amado e odiado em diferentes proporções pelo público cinéfilo e, particularmente no circuito da crítica, volta assim a defender uma ideia muito própria de cinema. E embora não arrisque tanto em questões capazes de gerar alguns ódios e amores que foi acumulando na última década (principalmente depois da saga Batman, passando por Interstellar, Dunkirk e Tenet), mantém a elevação do discurso e da linguagem cinematográfica hollywoodesca contemporânea, indo assim contra a crescente infantilização que temos assistido nas últimas décadas nestas paragens*.

Aliado às diferentes camadas que “Oppenheimer” entrega, sempre com um índice de espetacularidade coletiva, mas também de introspeção pessoal, este é um objeto cinematográfico que merece um olhar e reflexão adulta, ainda que não seja de todo a “bomba” do ano e a sua presença em salas IMAX não traga a mais valia que os seus projetos anteriores traziam.

*Com “Inception“, estreado em 2010, Nolan já navegava contra a corrente do modelo Marvel que começara a conquistar espaço no circuito dos blockbusters  

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
Rodrigo Fonseca
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