Será nesta altura repetitivo sublinhar o fascínio e a importância do Tempo como grandeza física manipulável no cinema de Christopher Nolan, que desde o seu primeiro trabalho – “Following” – joga com ele e connosco (não linearidade) para oferecer narrativas complexificadas que transformam os seus objetos cinemáticos em enigmáticas caixas com camadas e camadas individualizadas com a sua própria vida e regras.
Tenet é mais uma aventura do cineasta no reino da manipulação temporal, mas se em “Interstellar” entramos constantemente no reino da pseudo-metafísica, por aqui a teorização cientifica comanda tudo para entregar uma intriga internacional de espionagem tão velha como a Guerra Fria, e tão banal que até coloca como grande vilão Kenneth Branagh no papel de um oligarca russo – igual a tantos outros – com uma agenda terminal.
O filme começa como uma invasão a uma sala de espetáculos na Ucrânia que podia ser em qualquer recanto de Gotham City à mão de Joker ou Bane e a partir daí começam a surgir conceitos de física embrulhados em papel luxuoso para criar toda uma complexidade que na verdade nem existe. São intermináveis explicações atabalhoadas que levam a uma enorme descrença pela excessiva exposição das mesmas (como se o filme se tentasse convencer a si mesmo do que diz), especialmente quando ouvimos Clémence Poésy a falar sobre armas invertidas e restos de guerras que se aproximam, culminando toda a conversa com o nosso herói (e connosco) com um “não vão entender”. Nesse instante, o espectador emaranhado em conceitos fora do seu domínio reage com uma inevitável a gargalhada, quase que dizendo para si mesmo certo…certo. Continuemos… [afinal estamos num blockbuster de verão, por isso ser crente faz parte do processo]
Nada contra as narrativas absurdas típicas de filmes série B, bem pelo contrário, mesmo quando estas estão esquematizadas para entregar uma ficção científica de massas que propositadamente se apresenta de forma hermética (dificilmente contrariadas em termos práticos por leigos como nós) como status de ultra-inteligência e engenho, coisa que no final o filme revela não ter. Nesse aspeto, e ao contrário de “A Origem”, arrojo e pretensiosismo andam de mãos dadas nos extremos, tentando vender pechisbeque como um diamante bruto da física nuclear.
É que o que mais moí e falha por aqui – além de duas horas e meia energéticas mas esticadas além do necessário – é a mais perfeita banalidade da ação apresentada, muitas vezes aplicada ao tal conceito de inversão temporal que o filme introduz, tudo sem resultados coreográficos práticos ou espetaculares na criação de tensão (salva-se uma sequência que envolve um avião), como se estivéssemos perante um “primo sci-fi” de James Bond com a carga de nervosismo artificial iminente oferecida pela banda-sonora de Ludwig Göransson em moldes industriais.
Nesse aspeto, também não ajuda prever com antecedência alguns “twists” e ver John David Washington com dificuldades em agarrar o seu papel do Protagonista (termo/conceito/nome no filme) e muito menos a escassa ou mesmo nula química que atinge com a mulher do tal oligarca russo, interpretada por Elizabeth Debicki. E se isoladamente tanto ela (a mais humana) como Robert Pattinson (enigmático) estão uns furos acima da estrela de “Blackkklansman“, tudo o resto é adereço, como a habitual presença irrelevante de Michael Caine, o Stan Lee dos filmes da marca Nolan.
No final, temos um dos mais banais filmes do cineasta, onde o Tempo e a sua inversão pensam ser a magia e o toque esfíngico para carburar uma narrativa sem chama e que deixa muito pouco para recordar no meio de filmes como “Memento” e “A Origem”.



















