Com 200 milhões de dólares no bolso e mais de cinquenta anos de experiência no cinema, Martin Scorsese embarcou em “Killers of the Flower Moon” (Assassinos da Lua das Flores), uma jornada cinematográfica com tanto de épico como reivindicativo, seguindo de perto a exploração do homem branco dos nativos americanos, em terras indígenas da Nação Osange, Oklahoma, na década de 1920.

“O filme fala principalmente sobre os Osage, uma tribo de indígenas a quem demos um território horrível, mas que eles adoraram porque disseram a si mesmos que os brancos nunca se interessaram por ele. Depois, nós [os brancos] descobrimos lá petróleo e, durante aproximadamente dez anos, os Osage tornaram-se o povo mais rico do mundo, per capita. Em seguida, tal como nas regiões de Yukon e de mineração do Colorado, os abutres desembarcaram, o homem branco, o europeu chega e tudo está perdido”, disse Scorsese ainda antes de começar a filmar.

E se os 206 minutos de duração assustam aqueles que têm medo de estar numa sala de cinema durante tanto tempo, o ritmo imposto pelo cineasta atualmente com 80 anos, bem como a natureza dos eventos e a interpretação dos mesmos, é uma delícia servida em bandeja de prata, com Scorsese a revelar um domínio impressionante (mas não surpreendente) da mise-en-scène, e os atores a corresponderem com tanto carisma como potência, levando assim as suas personagens a bom porto, mesmo que alguns maneirismos (como aquele esticar do queixo de DiCaprio) possam alienar o espectador do foco central: este é um filme assumidamente crítico ao racismo e à segregação histórica nos EUA, que infinitamente criou e cimentou várias de gerações privilegiadas, com consequências na distribuição da riqueza da população até hoje.

Não é por isso à toa que Scorsese, por duas vezes, faça a comparação a dois eventos ocorridos no estado de Oklahoma na década de 1920: aquele que seguimos neste filme, em Osange, o extermínio cirúrgico dos donos do território indígena para a exploração do petróleo -, e o infame Massacre de Tulsa, quando multidões de moradores brancos atacaram os negros e as suas residências e lojas no distrito de Greenwood, em Tulsa.

Um resumo policial dos eventos de Osange, numa emissão de rádio, bem no final deste filme, cimenta ainda mais a forma crítica como Scorsese aborda esta temática, mostrando como incidentes históricos e criminosos moldaram muito do que a América é hoje. 

A liderar o elenco de “Killers of the Flower Moon” temos Leonardo DiCaprio como Ernest Burkhart, o sobrinho de um poderoso rancheiro local, interpretado pelo sempre avassalador Robert De Niro. Tal como um Al Capone (que interpretou em “Os Intocáveis”) mais contido, mas nunca menos assustador, mostra um velho oeste em transformação, entre homens a cavalo e outros de carro, e os velhos pistoleiros e os seus patrões a transitarem para os gangsters que se seguiram.

Os dois atores fetiche do realizador, já com dezenas de colaborações juntas, são (muito bem) acompanhados no elenco por Lily Gladstone como Mollie, uma indígena (das últimas na região com o poder) que se torna esposa de DiCaprio. Dificilmente a atriz – que tinha um pequeno papel em “First Cow – A Primeira Vaca da América” de Kelly Reichardt – não será nomeada ao Oscar de Melhor Atriz Secundária. Já Jesse Plemons, que interpreta Tom White, agente do recém-formado Bureau of Investigation (FBI) que lidera a investigação sobre os assassinatos da nação Osage, também tem as suas chances nos prémios da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas, bem como qualquer um dos protagonistas, dependendo da campanha de marketing feita pela Apple quando chegar a “awards season“.

Pegando em códigos dos westerns, que também já aplicara nos seus filmes de gangsters anteriores, Scorsese cria assim uma nova peça do seu puzzle que explora a fundação da América (como Gangues de Nova Iorqueo era), sem deixar margem para dúvidas na mensagem que quer transmitir ao espectador e na qualidade do cinema que entrega.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
Rodrigo Fonseca
killers-of-the-flower-moon-scorsese-regressa-com-tanto-de-epico-como-reivindicativoScorsese cria assim uma nova peça do seu puzzle que explora a fundação da América e como os incidentes do passado e injustiças crónicas tiveram consequências na distribuição da riqueza da população até hoje.