Quase 10 anos depois de analisar a guerra secreta de drones da CIA (Drone, 2014), e quatro anos após seguir a florescente indústria de inteligência artificial (iHuman, 2019), a norueguesa Tonje Hessen Schei, juntamente com o norte-americano Michael Rowley (Hurdle, 2019) entram agora pelo mundo a dentro dos movimentos evangélicos e fundamentalistas cristãos nos EUA, mostrando como estes têm um enorme impacto nas escolhas internas da política norte-americana, mas igualmente poder nas relações externas, em questões como o do conflito entre Israel e a Palestina.
Seguindo vários depoimentos, além de imagens reais de eventos organizados pelos grupos evangélicos, entre os EUA e Israel, a dupla – sem recorrer a montagens de cortes rápidos que se tornaram padrão no modelo “reportagem Vice” – questiona como a laicidade dos estados é periclitante num país como o agora governado por Joe Biden, refletindo igualmente como a visão cristã fundamentalista tem uma enorme conexão ao belicismo norte-americano. É que, na mente destas gentes (cerca de 100 milhões nos EUA), Jesus veio à Terra pela primeira vez para nos salvar e prepara-se agora para voltar com o âmbito de julgar. E fará isso não com a espada, como diz na bíblia, mas com uma metralhadora. O “Armagedão” é uma certeza (e desejável) e Jerusalém, que será o derradeiro campo de batalha, deve ser controlada pelo povo judeu. Tudo isto são precursores necessários para o fim dos tempos, quando os fiéis cristãos serão “arrebatados” (levados para o céu) antes que a Terra seja destruída.
É nesse sentido que cerca de ⅓ desses fundamentalistas já contribuíram monetariamente, de alguma forma, para a proliferação das ideias sionistas, as quais esbarram na existência palestiniana, provocando toda a instabilidade que conhecemos na região.
Sem nunca, explicitamente, tomar um partido (embora mantenha uma abordagem crítica), a dupla acompanha factos e testemunhos, construindo um documentário fortemente observacional, mas também interventivo e inquisidor através do questionamento direto a algumas figuras importantes destes movimentos, como o pastor John Hagee. Mike Pence, antigo vice-presidente na legislatura de Donald Trump, nunca aparece em cena a falar para o documentário, mas a sua presença em convenções e comícios mostra o quão embrenhado os movimentos evangélicos estavam no governo norte-americano – o que teve igual paralelo no Brasil, nos tempos do Bolsonarismo.
E com tudo isto, Tonje Hessen Schei e Michael Rowley executam um documentário essencial, especialmente para os que gostam do registo puramente jornalístico em fusão com o cinematográfico.




















