Baseado na série homónima criada por Kevin Hart para a plataforma de streaming Quibi, e agora reimaginada em formato de longa-metragem sob a liderança de Eric Appel (Brooklyn Nine-Nine), “Die Hart” segue Kevin Hart numa versão fictícia de si mesmo, enquanto este se prepara para deixar de ser rotulado como uma estrela da comédia ou mero sidekick cómico de Dwayne “The Rock” Johnson, para ser levado a sério como uma estrela do cinema de ação a solo.
Metafilme que conscientemente brinca com os estereótipos de um género, com códigos rígidos e definições de virilidade e masculinidade também elas formatadas, esta comédia de ação per se falha em proporcionar um entretenimento sustentável – de risos, thrills e chills – ao longo da sua duração, mas toca em todos os pontos relevantes da questão que coloca, proporcionando assim um objeto mais conseguido para debater no “depois” do visionamento, que no “durante”, onde Kevin Hart é convencido a trabalhar numa escola de heróis de ação, dirigida por Ron Wilcox ( John Travolta), para aprender como se tornar uma das estrelas de ação mais cobiçadas da indústria.
Desconstruindo um género e os seus clichés, que à parte de Tom Cruise e Jackie Chan (mencionados no filme) dificilmente coloca como heróis/protagonistas os homens de baixa estatura (1,70, diga-se) ou mulheres (Gal Gadot e Scarlett Johansson são exceções referenciadas), “Die Hart” (cujo título nos remete para o “Die Hard” com Bruce Willis) tem nas suas ambições estéticas uma enorme simplicidade, mas sempre abraçando todos os códigos e formatações que Hollywood impôs. Porém, nesse encontro com o espectável, é no subtexto que o filme morde a mão de quem o alimenta e criou estrelas. Está assim nas entrelinhas a verdadeira força deste filme, em especial no questionamento à testosterona, que claramente – para o espectador em geral – está ausente do filme.
Por isso mesmo, “Die Hart” não critica apenas Hollywood, mas a audiência que formatou a sua mente e as suas exigências para continuar a seguir os produtos cinematográficos que de lá vêm. É que, vistas as coisas, Hollywood – no seu lado mais mercadológico – não é o verdadeiro problema, mas sim a sociedade que a consome e que exige ver o herói de ação como uma figura viril e charmosa, sempre pronta a salvar a “damsel in distress”. Ora, em 2023, esse velho requisito é tão patético como bafiento, contribuindo esta produção para a sua discussão.




















